De Zendaya a Gabbriette: a Matières Fécales é tudo isso mesmo!

por Izabela Suzuki

Mas é tudo isso o quê? É exatamente isso que você está pensando: polêmica e altamente provocativa. Se essas eram as palavras que passaram pela sua cabeça, então você sempre esteve certo. A Matières Fécales incomoda muita gente, mas o que é a moda se, muitas vezes, ela não tocar na ferida? Nem tudo precisa ser belo, arrebatador, apoteótico ou faraônico. Às vezes, ela é “feia” mesmo e vai coçar não importa o quanto você tente ignorar — tipo aquela picada de pernilongo no peito do pé, sabe?

Foto: Hannah Rose Dalton e Steven Raj Bhaskaran em 2018 (Reprodução/Instagram)

Traduzindo do francês, “matéria fecal”, a Matières Fécales é uma marca fundada pelos canadenses Hannah Rose Dalton e Steven Raj Bhaskaran, casal criativo que se conheceu enquanto estudava modelagem na LaSalle College, em Montreal. Eles começaram a desenvolver o projeto entre 2014 e 2015 e passaram quase uma década construindo uma comunidade antes de chegarem oficialmente ao calendário da Paris Fashion Week, em 2025.

No entanto, muito antes de adentrarem a PFW, os dois já desfilavam por aí completamente transformados: cabeças raspadas, sobrancelhas apagadas, lentes de contato totalmente brancas, próteses faciais, maquiagem extrema e roupas que pareciam vindas de um futuro pós-humano.

E o nome também é proposital. Segundo os próprios designers, ele nasceu como uma crítica à glamourização da indústria da moda. Eles queriam escolher um termo que ninguém compraria apenas pelo status. Na visão de Hannah e Steven, se alguém usasse uma peça da Matières Fécales, seria porque acreditava na marca — e não porque queria ostentar um logo importante.

Nada para vestir?

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Foto: Hannah Rose Dalton e Steven Raj Bhaskaran (Reprodução/Jamie Diamond)

Além disso, eles explicam que o nome também representa tudo aquilo que a moda tradicional tenta esconder: exploração, desperdício, consumo excessivo e os “resíduos” produzidos pela indústria. Hannah cita o colapso do edifício Rana Plaza, em Bangladesh, como um dos acontecimentos que despertaram seu desejo de questionar a face menos glamourosa da moda.

E se você acredita que o objetivo por trás das roupas e da aparência deles é puramente superficial — ou seja, apenas despertar curiosidade e torcer narizes — sinto lhe informar, mas você está enganada. Steven costuma dizer que sempre desenhou criaturas de mangá e personagens não humanos. Hannah, por outro lado, fala sobre como a aparência extrema é uma forma de rejeitar os padrões de beleza impostos pela sociedade.

A aparência propositalmente incômoda cutuca justamente aquela ferida que mencionei no início: o que acontece quando uma pessoa deixa completamente de tentar parecer “aceitável”?

Foto: Matières Fécales Fall 2025 (Reprodução/Vogue Runway)

Para seus desfiles, eles não desenvolvem apenas as roupas. Como se consideram verdadeiros performers, o casal também pensa na trilha sonora, na direção de arte e em toda a construção visual da apresentação. Hannah e Steven criam as próteses de cada look e constroem seus personagens a partir delas.

Com o apoio de uma base de fãs já consolidada e de nomes como Rick Owens e Michèle Lamy, os designers — frequentemente apontados como os grandes outsiders da Semana de Moda de Paris — levaram às passarelas críticas que fazem jus a tudo em que acreditam: da intolerância estética a tudo aquilo que fomos condicionados a enxergar como belo até dedos apontados para o the one percent, ou seja, os bilionários.

Foto: Matières Fécales Fall 2026 (Reprodução/Vogue Runway)

Seria impossível escrever sobre a dupla sem mencionar o último desfile. Alvo de muitas críticas (até de satanismo eles foram acusados, acredita?), a coleção tinha justamente a intenção de questionar o sistema e aqueles que fazem parte do 1% mais rico do mundo.

Máscaras feitas de dólares, luvas com palmas vermelhas, silhuetas que lembravam magnatas e socialites. A crítica não veio de maneira sutil; veio escancarada para quem quisesse ver.

INDIO, CALIFORNIA – APRIL 11: (FOR EDITORIAL USE ONLY) (EXCLUSIVE ACCESS) Lady Gaga performs at the Coachella Stage during the 2025 Coachella Valley Music and Arts Festival at Empire Polo Club on April 11, 2025 in Indio, California. (Photo by Kevin Mazur/Getty Images for Coachella)

Mesmo sob ataques de quem acredita que a dupla está ali apenas para chocar, de quem insiste em dizer que “isso não é moda” (como se existisse uma única forma de defini-la) ou até de quem enxerga algum tipo de “pacto” por trás da estética sombria, Hannah e Steven frequentemente respondem que essas reações apenas confirmam o ponto central do projeto: a dificuldade que a sociedade tem em aceitar corpos e identidades que escapam do padrão.

Flores murchas, tules rasgados, tecidos queimados e uma qualidade técnica impossível de ignorar. Era apenas questão de tempo até que a Matières Fécales chamasse a atenção de artistas que compartilham desse espírito provocador. Lady Gaga, María Zardoya e Gabbriette, por exemplo, já vestiram a grife — e foi para a modelo, inclusive, que a dupla criou seu primeiro vestido de noiva.

Foto: Gabbriette (Reprodução/Instagram)

Entre outros, Chappell Roan e FKA Twigs também não ficam para trás.

Mas o que mais chamou atenção recentemente (talvez até mais do que o vestido de noiva de Gabbriette) foi uma revelação feita por Law Roach. O stylist contou que a Matières Fécales guardou, durante dois anos, o vestido de anjo apresentado em seu primeiro desfile na Paris Fashion Week esperando pelo momento certo. Esse momento chegou na première de A Odisseia, quando Zendaya finalmente vestiu a criação.

Leia mais: Saiba tudo sobre o vestido de anjo de Zendaya na première de A Odisseia

NEW YORK, NEW YORK – JULY 14: Zendaya attends “The Odyssey” New York Premiere at AMC Lincoln Square Theater on July 14, 2026 in New York City. (Photo by Jamie McCarthy/Getty Images)

E talvez seja justamente aí que mora o maior fascínio da Matières Fécales. Uma marca criada para questionar o luxo hoje veste algumas das maiores celebridades do planeta. Uma grife que nasceu para desafiar a indústria agora desfila em Paris, ocupa tapetes vermelhos e desperta desejo. Contradição? Talvez. Ou talvez essa seja a única maneira de provocar mudanças em um sistema: entrando nele.

No fim, a Matières Fécales não parece interessada em oferecer respostas. E, considerando a quantidade de gente que ainda torce o nariz para a marca — seja pelo nome, pela estética ou pelas ideias — talvez esteja fazendo exatamente aquilo que toda moda memorável faz: obrigar a gente a pensar, mesmo quando a primeira reação é desviar o olhar.

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