Mas é tudo isso o quê? É exatamente isso que você está pensando: polêmica e altamente provocativa. Se essas eram as palavras que passaram pela sua cabeça, então você sempre esteve certo. A Matières Fécales incomoda muita gente, mas o que é a moda se, muitas vezes, ela não tocar na ferida? Nem tudo precisa ser belo, arrebatador, apoteótico ou faraônico. Às vezes, ela é “feia” mesmo e vai coçar não importa o quanto você tente ignorar — tipo aquela picada de pernilongo no peito do pé, sabe?

Traduzindo do francês, “matéria fecal”, a Matières Fécales é uma marca fundada pelos canadenses Hannah Rose Dalton e Steven Raj Bhaskaran, casal criativo que se conheceu enquanto estudava modelagem na LaSalle College, em Montreal. Eles começaram a desenvolver o projeto entre 2014 e 2015 e passaram quase uma década construindo uma comunidade antes de chegarem oficialmente ao calendário da Paris Fashion Week, em 2025.
No entanto, muito antes de adentrarem a PFW, os dois já desfilavam por aí completamente transformados: cabeças raspadas, sobrancelhas apagadas, lentes de contato totalmente brancas, próteses faciais, maquiagem extrema e roupas que pareciam vindas de um futuro pós-humano.
E o nome também é proposital. Segundo os próprios designers, ele nasceu como uma crítica à glamourização da indústria da moda. Eles queriam escolher um termo que ninguém compraria apenas pelo status. Na visão de Hannah e Steven, se alguém usasse uma peça da Matières Fécales, seria porque acreditava na marca — e não porque queria ostentar um logo importante.
Nada para vestir?
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Além disso, eles explicam que o nome também representa tudo aquilo que a moda tradicional tenta esconder: exploração, desperdício, consumo excessivo e os “resíduos” produzidos pela indústria. Hannah cita o colapso do edifício Rana Plaza, em Bangladesh, como um dos acontecimentos que despertaram seu desejo de questionar a face menos glamourosa da moda.
E se você acredita que o objetivo por trás das roupas e da aparência deles é puramente superficial — ou seja, apenas despertar curiosidade e torcer narizes — sinto lhe informar, mas você está enganada. Steven costuma dizer que sempre desenhou criaturas de mangá e personagens não humanos. Hannah, por outro lado, fala sobre como a aparência extrema é uma forma de rejeitar os padrões de beleza impostos pela sociedade.
A aparência propositalmente incômoda cutuca justamente aquela ferida que mencionei no início: o que acontece quando uma pessoa deixa completamente de tentar parecer “aceitável”?

Para seus desfiles, eles não desenvolvem apenas as roupas. Como se consideram verdadeiros performers, o casal também pensa na trilha sonora, na direção de arte e em toda a construção visual da apresentação. Hannah e Steven criam as próteses de cada look e constroem seus personagens a partir delas.
Com o apoio de uma base de fãs já consolidada e de nomes como Rick Owens e Michèle Lamy, os designers — frequentemente apontados como os grandes outsiders da Semana de Moda de Paris — levaram às passarelas críticas que fazem jus a tudo em que acreditam: da intolerância estética a tudo aquilo que fomos condicionados a enxergar como belo até dedos apontados para o the one percent, ou seja, os bilionários.

Seria impossível escrever sobre a dupla sem mencionar o último desfile. Alvo de muitas críticas (até de satanismo eles foram acusados, acredita?), a coleção tinha justamente a intenção de questionar o sistema e aqueles que fazem parte do 1% mais rico do mundo.
Máscaras feitas de dólares, luvas com palmas vermelhas, silhuetas que lembravam magnatas e socialites. A crítica não veio de maneira sutil; veio escancarada para quem quisesse ver.

Mesmo sob ataques de quem acredita que a dupla está ali apenas para chocar, de quem insiste em dizer que “isso não é moda” (como se existisse uma única forma de defini-la) ou até de quem enxerga algum tipo de “pacto” por trás da estética sombria, Hannah e Steven frequentemente respondem que essas reações apenas confirmam o ponto central do projeto: a dificuldade que a sociedade tem em aceitar corpos e identidades que escapam do padrão.
Flores murchas, tules rasgados, tecidos queimados e uma qualidade técnica impossível de ignorar. Era apenas questão de tempo até que a Matières Fécales chamasse a atenção de artistas que compartilham desse espírito provocador. Lady Gaga, María Zardoya e Gabbriette, por exemplo, já vestiram a grife — e foi para a modelo, inclusive, que a dupla criou seu primeiro vestido de noiva.

Entre outros, Chappell Roan e FKA Twigs também não ficam para trás.
Mas o que mais chamou atenção recentemente (talvez até mais do que o vestido de noiva de Gabbriette) foi uma revelação feita por Law Roach. O stylist contou que a Matières Fécales guardou, durante dois anos, o vestido de anjo apresentado em seu primeiro desfile na Paris Fashion Week esperando pelo momento certo. Esse momento chegou na première de A Odisseia, quando Zendaya finalmente vestiu a criação.
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E talvez seja justamente aí que mora o maior fascínio da Matières Fécales. Uma marca criada para questionar o luxo hoje veste algumas das maiores celebridades do planeta. Uma grife que nasceu para desafiar a indústria agora desfila em Paris, ocupa tapetes vermelhos e desperta desejo. Contradição? Talvez. Ou talvez essa seja a única maneira de provocar mudanças em um sistema: entrando nele.
No fim, a Matières Fécales não parece interessada em oferecer respostas. E, considerando a quantidade de gente que ainda torce o nariz para a marca — seja pelo nome, pela estética ou pelas ideias — talvez esteja fazendo exatamente aquilo que toda moda memorável faz: obrigar a gente a pensar, mesmo quando a primeira reação é desviar o olhar.
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