De 2015 para 2026: como os figurinos de ‘Off-Campus’ conquistaram a internet
Se você passou pelos anos de 2015 mergulhada no fenômeno dos livros de romance New Adult, com certeza a série Off-Campus (conhecida no Brasil como Amores Improváveis), da autora Elle Kennedy, moldou suas expectativas literárias. A história dos universitários jogadores de hóquei da Briar U e das mulheres fortes que conquistam seus corações arrebatou multidões.
Quando a adaptação para as telas foi anunciada, a ansiedade coletiva tomou conta da internet. Como atualizar uma estética de uma década atrás para o público hiperconectado de 2026? Para desvendar esse enigma fashion, o Steal The Look conversou com exclusividade com a brilhante figurinista da série, Charlene Akuamoah. Com uma transição natural do mundo da alta-costura (ela acumula em seu currículo um cobiçado estágio na lendária maison Valentino) para o design de figurinos audiovisuais, Charlene nos revelou em detalhes como transformou páginas de livros em pura expressão de estilo moderno, realista e altamente desejável.

O começo de tudo: do livro ao roteiro
Para Charlene, o desafio não era apenas criar roupas bonitas, mas respeitar um ecossistema de fãs extremamente zelosos e apaixonados pelos personagens desde 2015. “Uma das coisas que eu mais amo fazer é meio que adaptar um mundo que já existe”, conta a figurinista, sem esconder o entusiasmo. “Sinto que a Elle Kennedy construiu um universo tão incrível com Off-Campus, então foi muito emocionante saber que eu iria ajudar a trazer esses personagens à vida. Eles estão no mundo desde 2015 e já houve tantas novas gerações de pessoas que descobriram esse livro. Então, obviamente, todo mundo tem suas próprias ideias de como o Garrett seria, de como a Hannah seria… Tem sido muito divertido mergulhar nesse mundo.”
O processo de pesquisa de Charlene foi meticuloso, digno de uma verdadeira estudante da moda e da literatura. Longe de se apoiar apenas em resumos, ela mergulhou de cabeça no material original: “O primeiro passo é o próprio livro. Eu li os quatro livros da série Off-Campus só para entender melhor todos os garotos, todos os personagens e todas as formas como eles interagem. Eu realmente estudei muito os livros e fiz um pente fino só para conseguir pistas, porque às vezes, quando você está lendo só por ler, você fica imerso no mundo e não pensa em detalhes específicos. Então, eu li e reli muitas vezes só para pegar o máximo de pistas possível.”
Após esgotar as páginas literárias, o passo seguinte foi analisar as entrelinhas milimetricamente pensadas pelos showrunners. “Depois, você vai para o roteiro, porque ele é um pouco diferente do que lemos nos livros. A equipe de roteiristas foi tão incrível e tão intencionais com as mudanças que fizeram, com a forma como cada um desses personagens se apresentava na tela. Foi uma daquelas coisas tipo ‘esse é um homem escrito por uma mulher’, então eu realmente amei como esses personagens foram escritos”, elogia Charlene.
O desafio da linha do tempo: traduzindo 2015 para 2026
Uma das maiores curiosidades do público é a lacuna temporal. Como os livros estouraram há dez anos, a moda daquela época — marcada por excessos e tendências que hoje olhamos com desconfiança — precisava de uma repaginada radical para fazer sentido em 2026, ano em que a produção se passa e foi gravada. Charlene explicou que o segredo foi apostar na ciclicidade da moda.

“Acho que teve muito mais a ver com entender quem esses personagens seriam hoje. Sinto que a moda é cíclica, então algo que você teria usado em 2015 pode voltar 10 anos depois, que foi quando filmamos. Sinto que há momentos na vida em que certos estilos voltam. A calça jeans skinny, por exemplo, (está) ensaiando um retorno… Então eu meio que pensei em quais estilos voltariam, quais estilos fariam sentido para cada um dos personagens e também onde eles comprariam roupas agora.”
CHARLENE AKUAMOAH
Essa diferenciação de estilo fica evidente no contraste marcante entre as duas melhores amigas e protagonistas femininas, Hannah e Allie. O figurino não dita apenas a estética, mas atua diretamente como ferramenta de narrativa e reflexo da realidade socioeconômica de cada uma. “Onde a Hannah compra roupas hoje em dia versus onde a Allie compra? Elas não compram nas mesmas lojas, e é por isso que, quando vemos a Hannah usando a jaqueta vermelha da Allie, você sabe imediatamente que a jaqueta é da Allie, porque o estilo é muito marcante. E sabemos que o estilo da Hannah é muito mais contido, simples e suave. Foi meio que daí que isso evoluiu”, explica Charlene.
Ela pontua que ancorar as escolhas na realidade financeira faz toda a diferença para o público se conectar: “Faz sentido para essa pessoa usar algo que custa mil dólares? Ela teria condições de pagar? Com a Hannah, por exemplo, ela repete algumas de suas roupas e sapatos ao longo da temporada. Já a Allie, nós a vemos com roupas novas o tempo todo. Isso mostra, financeiramente, onde as duas garotas estão.”
O fenômeno inesperado: a internet enlouqueceu pelos sutiãs
Se você esteve ativa nas redes sociais nas últimas semanas, com certeza cruzou com tweets ou TikToks de espectadoras declarando que a série as fez repensar completamente suas gavetas de lingerie. O “efeito Off-Campus” gerou uma busca frenética por lingeries estruturadas, bonitas e que valorizam o corpo. Charlene confessa que não previu que esse detalhe íntimo se tornaria o maior viral fashion da produção.
“Minhas mensagens diretas (DMs) agora estão completamente lotadas de mulheres de todas as idades e tamanhos perguntando sobre os sutiãs e onde comprá-los!”, diverte-se a figurinista. “E eu acho tão lindo que o que acabamos fazendo na tela tenha feito tantas mulheres se sentirem tão empoderadas, tão confortáveis em sua própria pele e com vontade de explorar e se divertir com lingeries. Achar roupas de baixo e sutiãs bons é a base de tudo. Acho que, quando você domina suas roupas de baixo, você domina a arte de vestir o seu corpo. Então, sou muito grata que, surpreendentemente, esses sutiãs tenham acabado sendo o maior sucesso da série.”

Bastidores do closet: o vestido Versace da J-Lo e peças desejadas
Se por um lado os sutiãs dominaram o dia a dia, dois episódios específicos exigiram um esforço monumental e hercúleo da equipe de figurino: o episódio do “Drunken Shakespeare” (Shakespeare Bêbado) e a icônica festa à fantasia onde uma das personagens revive o lendário vestido verde Versace usado por Jennifer Lopez no Grammy de 2000.
“Houve a pressão de recriar um figurino tão icônico. Aquele vestido da J-Lo tem mais de 20 anos, sabe? Quando aquilo aconteceu, lembro de ver pela primeira vez e saber o enorme impacto cultural que acabou tendo. O desafio foi garantir que eu faria justiça a ele. Garantir que, se a Donatella Versace visse o vestido, ela diria: ‘Sabe de uma coisa? Ficou bom. Nós arrasamos'”.
O nível de perfeccionismo nos bastidores foi impressionante: “Nós trabalhamos muito duro; em cada prova de roupa éramos eu, minha assistente de figurino e o Evan. Nós estávamos fazendo o caimento, ajustando os decotes e garantindo que a barra estivesse exatamente onde deveria estar. Nós a colocamos de salto alto, a fizemos andar, a fizemos dançar para garantir que o vestido se movesse da forma como deveria se mover. Até o tecido, o tom do verde tinha que ser o correto. E o pequeno broche na frente foi pintado à mão!”
Segredos de bastidores por Charlene Akuamoah
Roubos do Set: Se pudesse colocar algo na mala, Charlene levaria a jaqueta vermelha oversized da marca Lioness usada por Allie (que já está completamente esgotada no mundo real) e a icônica camiseta personalizada “Daddy” usada por Dean.
Garimpo Real: A maior parte dos figurinos veio de uma mistura certeira de compras online, muito garimpo em brechós (thrifting) e confecção própria quando as peças ideais não existiam no mercado.
Moda nos Esportes: A figurinista uniu referências das passarelas internacionais de alta-costura com o street style para dar uma identidade de moda real e desejável aos cobiçados “garotos do hóquei”.

Conselho de quem sabe: o futuro na moda
Para encerrar o nosso papo, a figurinista deixou um conselho valioso e inspirador para as leitoras do Steal The Look que sonham em trilhar um caminho no competitivo e fascinante universo fashion. E a palavra de ordem é uma só: coletividade.
“Eu sempre digo que comunidade é fundamental. Estar em comunidade com outras pessoas da moda. O que realmente me ajudou foi tentar fazer o máximo de conexões possível com outras pessoas da área. Acho que o que estamos precisando neste mundo hoje em dia é dessa conexão. Tem sido muito útil para mim estar em comunidade com muitas outras mulheres da moda, realmente nos conectando e crescendo juntas. Minha comunidade da moda realmente me apoiou e me ajudou na minha carreira. São pessoas para quem eu tinha começado trabalhando como estagiária. Então é muito importante continuar pesquisando, continuar estudando, ser uma estudante da moda. Entender os arquivos, entender que as tendências são cíclicas, estudar isso de verdade e simplesmente estar em comunidade com seus colegas.”
Com um olhar atento ao realismo, paixão visceral pelos detalhes e respeito à história original, Charlene Akuamoah não apenas vestiu os personagens de Off-Campus; ela estabeleceu um novo olhar no que diz respeito aos figurinos inspirados em livros. E nós, claro, já estamos prontas para roubar todos esses looks!
