Entrevistamos Beth de Araújo, diretora de “Josephine”

por Miriam Spritzer

A diretora americana de raízes brasileiras fala sobre criar uma protagonista de oito anos inspirada em Taxi Driver, dirigir a estreante Mason e acompanhar as reações do público em festivais ao redor do mundo

BETH DE ARAÚJO E A CORAGEM DE JOSEPHINE: mulher abraça menina listrada em elevador, homem de camisa bege observa tenso
Reprodução: Festival de Sundance

Filha de pai brasileiro, Beth de Araújo cresceu em São Francisco, em uma família que descreve como culturalmente diversa, e hoje é cidadã dos dois países. Foi em Porto Alegre, aliás, que viveu uma de suas primeiras conexões marcantes com o circuito brasileiro, quando seu primeiro longa, Soft and Quiet, foi exibido no Fantaspoa. “Foi tão divertido. Nunca tinha estado naquela parte do Brasil. Era tão efervescente, cheia de vida e de arte. Foi lindo”, relembra. Agora é a vez de Josephine cruzar o oceano, com exibição no Festival do Rio, ocasião que ela aproveita para rever uma prima que mora na cidade.

Se o primeiro trabalho da diretora já chamava atenção pela ousadia, Josephine consolida seu nome como uma das vozes mais interessantes do cinema autoral americano. No elenco, Channing Tatum e a atriz Gemma vivem os pais de uma menina que, aos oito anos, testemunha um evento traumático e passa a enxergar o mundo de um jeito novo. A protagonista é interpretada por Mason, atriz mirim em seu primeiro trabalho profissional, apontada como uma das grandes surpresas do filme. Tanto que, durante a conversa, é difícil não se emocionar ao ouvir Beth falar dela. “Ela é uma leitora voraz, lê um livro por dia. Fala espanhol, mandarim e inglês, e é faixa avançada em jiu jitsu. É uma criança incrível.”

“A coisa mais importante para mim era manter a Mason segura e garantir que ela tivesse uma ótima experiência, já que era o primeiro filme dela”, conta Beth. Segundo ela, esse cuidado era de todo o elenco. “O Channing é pai de menina, então lida muito bem com crianças, sempre mantendo o clima leve entre uma tomada e outra.” Para conduzir uma atriz sem experiência prévia, Beth apostou em construir confiança aos poucos, escrevendo com ela momentos de frustração, raiva, tristeza, orgulho e vergonha, associados depois a cenas específicas do roteiro. Nos bastidores, o cuidado também passava por coisas simples, como manter o set sempre abastecido com os lanches favoritos da menina. “A conta de sushi dela ficou bem alta”, brinca a diretora. “Mas ela é tão talentosa que ficou mais fácil do que normalmente seria. Ela já é como uma irmã mais nova para mim. Sinto mesmo que temos uma jovem Natalie Portman aqui.”

Ainda que a trama seja ficcional, Beth buscou retratar com fidelidade as etapas do sistema de justiça criminal americano, e reconhece que parte da inspiração veio da própria infância, quando jogava muito futebol, elemento que virou o vínculo entre pai e filha na tela. Mas faz questão de separar vida real e roteiro. “Todo artista parte de algo pessoal em cada trabalho. A liberdade da ficção permite contar uma história maior, sobre a resiliência dessa família, sobre como a garota aprende a reconhecer o chamado para ajudar o outro quando está sofrendo.” Ao lado de Channing, desenvolveu o passado de Damien para garantir coerência em cada cena, processo semelhante ao vivido com Gemma na construção da mãe, marcada por uma repressão que só vem à tona quando a filha a força a encarar tudo aquilo.

Esse amadurecimento sustenta o filme até seu momento mais comovente, quando a protagonista, que passa boa parte da história observando tudo em silêncio, se torna quem oferece segurança a uma desconhecida dentro de uma viatura policial. É um giro tão sutil que muita gente só percebe todas as camadas do filme depois que sai da sala.

O contraste entre os estilos dos pais, um voltado à proteção física e o outro ao acolhimento emocional, é um dos pontos mais comentados pelo público. “As pessoas tendem a se identificar mais com um dos dois pais. Eu me inspirei muito em Uma Separação para isso, porque aquele filme é tão impactante, aquela dinâmica entre mãe e pai é tão bem construída, que o público fica sempre na dúvida sobre quem está certo. E os dois amam a filha profundamente, cada um à sua maneira.” Outra referência foi Taxi Driver. “Quando vi o Travis Bickle, me identifiquei na hora, com aquela sensação de que um evento traumático faz você enxergar o mundo como mais sombrio, porque agora tem provas disso. Uma vez que você vê, não consegue mais deixar de ver. Fiquei pensando, será que dá para transformar o Travis Bickle numa menina de oito anos, que também está em espiral, que pensa, se ninguém mais vai resolver isso, eu vou resolver.” A comparação tem gerado reações certeiras. “As pessoas perguntam se era mesmo a intenção fazer o público sentir que ela está perdendo o controle. A resposta é sim.”

Josephine estreou no Festival de Berlim e, desde então, passou por exibições na Austrália, recebendo reações que Beth descreve como coerentes com o que buscava provocar. Segundo ela, nada até agora foi realmente surpreendente, o que reforça que a mensagem do filme está chegando exatamente como pretendido. Agora é a vez do Brasil conhecer a história, no Festival do Rio, ocasião que Beth aguarda com carinho especial, por reencontrar, ainda que de forma indireta, as raízes que também moldaram o filme.

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