História da moda: Ralph Lauren

por Beta Weber

Um fundador visionário que começou fazendo gravatas, unindo códigos do estilo preppy com o clima western dos cowboys, celebrando valores de uma vida ao ar livre e pilares do lifestyle norte-americano, a seguir, a gente conta tudo que você precisa saber sobre Ralph Lauren.

Homem com blazer duplo preto e gravata xadrez Ralph Lauren examina gravatas de seda em tons neutros, em ambiente clássico.
Foto: Ralph Lauren (Divulgação)


tudo sobre a carreira de Ralph Lauren

o início

Ralph Lauren nasceu Ralph Lifshitz, no Bronx, em Nova York, filho de imigrantes judeus da Bielorrússia. Interessado por moda desde jovem, ele nunca estudou design, optando por cursar administração brevemente, mas desistindo do diploma antes de se formar. 

Sua carreira começou de forma pouco convencional. Ralph sempre cultivou um estilo único e tinha dificuldade em encontrar peças como as que imaginava, até conhecer um alfaiate que conseguia executar exatamente suas ideias. Foi aí que teve o estalo: transformar isso em negócio, inicialmente vendendo gravatas feitas à mão para amigos e colegas de trabalho enquanto atuava como vendedor na Brooks Brothers.

Homem e mulher vestem peças Ralph Lauren com jaquetas em camurça e tweed, jeans e gola alta preta, em clima elegante.
Foto: Ralph Lauren (Divulgação)

Essa origem “fora do sistema” contribuiu para sua visão distinta, centrada no lifestyle, e não apenas na roupa. Com o êxito do projeto, em 1967, ele lançou a marca Polo com uma coleção de gravatas largas e luxuosas, que iam contra os padrões estreitos da época. Pouco tempo depois, expandiu para uma linha masculina completa, marcada por alfaiataria refinada com um toque esportivo e aristocrático.

Em 1971, a marca deu seus primeiros passos no universo feminino com uma linha de camisas, seguida por uma coleção completa para mulheres um ano depois, imprimindo os mesmos códigos sofisticados e atemporais que já faziam sucesso no masculino. Sua grande musa? A esposa, Ricky, com quem é casado até hoje e que conheceu no Bronx aos 20 e poucos anos, antes mesmo de lançar a marca. 

Modelo adulto e criança vestem polos brancas de algodão e calças claras Ralph Lauren, em pose relaxada e elegante no convés
Foto: Ralph Lauren (Reprodução/Instagram)

os códigos e as marcas registradas 

Segundo Audrey Hepburn, “Como designer, Ralph evoca o campo, manhãs enevoadas, tardes de verão, grandes espaços abertos, cavalos, milharais, hortas, lareiras…” e foi essa capacidade de criar um universo completo e aspiracional que transformou a grife em um fenômeno há mais de 50 anos.

Suas marcas registradas vão além dos produtos: são parte de um storytelling cuidadosamente costurado ao longo de décadas, juntando todos os seus interesses, dos esportes à era de ouro do cinema, dos clubes ingleses aos carros vintage, tudo permeado pela herança cultural norte-americana, pela excelência artesanal e por um alto padrão de qualidade em todas as esferas.

Modelo senta em bote laranja à beira d’água vestindo polo oversized terracota e calça bege dobrada, Ralph lauren
Foto: Ralph Lauren (Reprodução/Instagram)

Camisa polo

Lançada em 1972 em uma variedade de cores, a icônica polo com o logo do jogador de polo virou sinônimo do estilo americano descontraído e elegante, e um best-seller instantâneo. Até hoje, é uma das peças mais reconhecíveis (e copiadas) da história da moda.

Suéter verde de lã Ralph Lauren com bordado de urso estilizado, camisa azul listrada e acessórios em tom terroso.
Foto: Ralph Lauren (Reprodução/Instagram)

Polo Bear

O ursinho mais bem vestido do planeta começou como um presente da Steiff, tradicional marca alemã de brinquedos, para Ralph Lauren e seus irmãos. Em 1991, o mascote virou estampa de suéteres e camisetas, sempre com looks que ecoavam as coleções da marca. O Polo Bear virou item cult e símbolo do lado mais lúdico do universo Ralph Lauren.

Franjas, jeans e o mix de americana com preppy

Além das polos e do ursinho icônico, a Ralph Lauren ficou conhecida por fundir o estilo preppy das universidades da Ivy League com elementos do guarda-roupa do Velho Oeste — como franjas, couro e jeans desgastado. Esse mix de americana é um dos traços mais fortes da marca, e aparece até hoje nas coleções, reforçando o storytelling de um estilo de vida que é ao mesmo tempo elegante, rústico e 100% americano.

Ralph Lauren sorri e posa com jaqueta jeans clara, suéter preto com bandeira dos EUA em tricô e cinto de fivela prata.
Foto: Ralph Lauren (Reprodução/Instagram)

Isso se reflete no estilo pessoal de Ralph, que é fã do combo jeans com jeans, blazers em material nobre, jaquetas de couro, óculos do tipo aviador e toques western, seja com botas de cowboy, jaquetas de camurça ou cintos com fivelas statement. 

@tabby_carpenter

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expandindo o império

A primeira loja Polo Ralph Lauren foi aberta na histórica Rodeo Drive, Beverly Hills, e foi também a primeira loja de designer americano naquele endereço. Ralph sempre acreditou que uma loja física é a melhor forma de comunicar o DNA da marca. A original em Los Angeles serviu também como uma vitrine de lifestyle, com decoração inspirada em clubes ingleses.

Sua flagship de Nova Iorque foi aberta em 1986, apelidada de “Mansão”, localizada na Madison Avenue, se tornou endereço disputado como ponto de encontro da cena nova-iorquina. Mesmo para mquem não podia comprar nada, mas queria vivenciar aquele universo.

Ao longo das décadas, a Ralph Lauren expandiu muito além das roupas. Hoje, conta com linhas que vão do casual ao luxo, como Polo, Purple Label, Lauren e RLL, além de ter adquirido a Club Monaco, perfumes icônicos como o Polo Green e o Romance, e uma linha completa de decoração com móveis, enxoval de cama e banho sob o selo Ralph Lauren Home.

Tão influente que a busca por “Ralph Lauren Christmas” sempre viraliza no TikTok no fim do ano, com vídeos que mostram casas decoradas no estilo característico da grife: muita madeira escura, lareiras, mantas xadrez, árvores de Natal deslumbrantes e, claro, suéteres natalinos e pijamas de flanela na cartela de cores temática.

Apostando também em experiências, com o Ralph's Coffee, café presente em grandes capitais, em endereços fixos e pop-ups sazonais, e versões mais requintadas como os restaurantes Polo Bar e Ralph’s, em locais como Nova Iorque e Paris. 

Ralph Lauren destaca estilo western com jaquetas de couro e jeans, camisas xadrez, chapéus e tons terrosos em clima rústico
Foto: Ralph Lauren (Reprodução/Instagram)

o lifestyle

Lauren já declarou “detestar moda”, afirmando que nunca teve interesse em tendências, mas sim em conceitos. Seu foco sempre foi na atemporalidade, nos valores e na representação de um estilo de vida no qual realmente acredita e vive, entre a sofisticação discreta de sua casa em Bedford e o espírito livre de seu rancho no Colorado.

Isso se reflete nos pilares estéticos cultivados ao longo de todo o seu império, traduzindo com consistência arquétipos clássicos do made in USA, como o cowboy, o estudante da Ivy League e o soldado, com referências à alfaiataria militar e ao vestuário da marinha americana, em produtos que atravessam gerações. Não importa a temporada ou o que está em alta: nas lojas da Ralph Lauren, você sempre vai encontrar camisas polo, camisetas de rugby, gravatas largas, bons tricôs, blazer de tweed, jaquetas navy com botões dourados, variações de xadrez, peças franjadas e cintos com inspiração western. 

Conjunto Ralph Lauren com jaqueta varsity branca de algodão, boné e bolsa esportiva em tons neutros, clima clássico.
Foto: Ralph Lauren (Reprodução/Instagram)

esportes

Quando se trata de branding, a marca é um dos exemplos mais geniais de alinhamento perfeito entre seus códigos e marketing. E claro que o mundo dos esportes é um dos mais importantes. A grife patrocina há décadas competições de polo, golfe, hipismo, regata e outras práticas que se encaixam com o lifestyle RL. 

Desde 2006, é parceira oficial do Torneio de Wimbledon, vestindo juízes e equipe com peças feitas sob medida — misturando tradição britânica com o toque inconfundível do preppy americano. E o patrocínio vai além do uniforme: o camarote da marca em Wimbledon se tornou um dos hotspots mais disputados para assistir aos jogos, reunindo celebridades vestidas de Ralph dos pés à cabeça.

Em casa, confecciona os uniformes das Olimpíadas e Paralimpíadas da delegação dos EUA desde 2008, incluindo as edições de inverno e verão.

os desfiles

Ralph nunca deu muita bola para o calendário oficial, frequentemente apresentando as coleções em seu próprio ritmo. E os desfiles, quando acontecem, são verdadeiros espetáculos imersivos, pensados para transportar o público ao universo da marca: já teve desfile ambientado em restaurantes, no Central Park e até em sua garagem de carros clássicos. Sempre alinhados à essência da casa. 

Modelo posa com elegância em terno creme Ralph Lauren de corte clássico, colete e gravata larga, criando clima sofisticado.
Foto: O Grande Gatsby (1974) (Divulgação)

na cultura pop

Sem dúvidas, a marca cultiva um ar cinematográfico e por isso mesmo, sua inserção no cinema era algo inevitável. Surgindo em alguns clássicos como O Grande Gatsby (1974), assinando os figurinos de Robert Redford, traduzindo com perfeição o luxo dos anos 1920 com sua estética refinada. 

E em Annie Hall (1977), com Diane Keaton imortalizando um novo jeito de vestir com looks que misturavam elementos masculinos e femininos — muitos deles assinados por Lauren. Que aliás, continua referenciando o estilo excêntrico ancorado em alfaiataria em suas coleções.

Na TV,  teve papel central na série Friends, Rachel Green, personagem de Jennifer Aniston, trabalhava na marca e o próprio fundador apareceu em episódio da série.

Nos anos 90, a linha Polo Sport, assim como peças da linha principal com logos grandes e cores vibrantes,  foi apropriada pela cena hip hop do Brooklyn. O coletivo Lo Lifes, formado por jovens negros e latinos, ficou conhecido por ostentar looks completos da Ralph Lauren como símbolo de status e atitude, transformando a grife em item de desejo nas ruas. A reinterpretação ajudou a consolidar o apelo da marca em diferentes segmentos culturais e, anos depois, passou a ser celebrada oficialmente em colaborações e campanhas que celebram essa intersecção entre luxo, identidade e streetwear.

Pilhas coloridas de polos de algodão Ralph Lauren exibem modelagens clássicas sobre mala vintage.
Foto: Ralph Lauren (Divulgação)

sustentabilidade e reinvenção 

Sempre atenta ao comportamento do consumidor, a marca busca constantemente maneiras de se atualizar no mercado. 

O crescimento do vintage e a nostalgia da geração Z por outras épocas não passaram despercebidos e deram fruto a uma estratégia brilhante: de um lado, o resgate de arquivos da própria marca, adquiridos online, autenticados, restaurados e revendidos pelos canais oficiais; de outro, a atualização da linha atual, com relançamentos especiais e uma curadoria mais focada. Hoje, cerca de 70% do mix da Polo Ralph Lauren gira em torno de ícones do estilo preppy — reforçando sua autoridade histórica enquanto responde ao desejo por consumo mais consciente

O programa Ralph Lauren Re/Wear vai além da revenda: envolve restauração artesanal e uso de materiais reciclados, costurando história e circularidade com luxo. Em 2024, a marca também anunciou metas de neutralidade de carbono e rastreabilidade completa de materiais até 2030.

A presença digital também se destaca, seja por experiências imersivas, seja por parcerias estratégicas. Em 2021, lançou uma loja virtual dentro do Fortnite, criando conexão com a comunidade gamer. No mesmo espírito de reinvenção, colaborações com marcas como Palace e artistas como A$AP Rocky reaproximaram a Ralph Lauren de públicos mais jovens, reforçando o poder de seus ícones — como a polo e o ursinho — como peças atemporais e versáteis.

Modelos desfilam com peças básicas Ralph Lauren em preto e branco, destacando camiseta justa com logo rosa.
Foto: Ralph Lauren (Reprodução/Instagram)

filantropia

Desde os anos 90, Ralph tem envolvimento forte em causas como prevenção e tratamento contra o câncer. Construiu o Ralph Lauren Center for Cancer Care, em parceria com o Memorial Sloan Kettering — um dos maiores centros oncológicos dos EUA — e uma ala completa no The Royal Marsden’s Ralph Lauren Research Wing, em Londres. Além disso, criou a iniciativa Pink Pony, existente há mais de duas décadas, focada em ampliar o acesso a diagnóstico precoce, tratamento de qualidade e apoio comunitário a pacientes. Pelo menos 25% do valor das peças da coleção Pink Pony é revertido para instituições ligadas ao combate ao câncer, com recursos distribuídos globalmente

legado 

Grandes nomes trabalharam na marca antes de partirem para novos desafios, como John Varvatos, Thom Browne e Michael Rider, atual diretor criativo da Celine.

Aos 86 anos, Ralph Lauren continua no comando criativo da marca que leva seu nome, e pasmem, segue envolvido nos desfiles, nas campanhas e em decisões estratégicas. Em 2025, foi novamente reconhecido pelo CFDA (Council of Fashion Designers of America), recebendo o prêmio de Estilista do Ano, uma prova da sua relevância contínua e da maneira como tem reinventado a marca sem nunca abrir mão da essência.

Quer saber mais?

O documentário Very Ralph está disponível na plataforma HBO.