O Gramofone e o limite: o posicionamento do BTS e a longa história de fricção com a premiação
Se você acompanha a cultura pop, já deve ter percebido que a relação entre a indústria da música e suas premiações mais “tradicionais” há tempos deixou de ser de puro deslumbre. O capítulo mais recente dessa novela envolve o BTS, e, para ser bem sincera? Eles estão cobertos de razão. A decisão do grupo de não submeter o aclamado ARIRANG ao Grammy de 2027 acendeu, mais uma vez, um alerta necessário.

A criação de uma categoria voltada para “Melhor Performance Pop Asiático” pode soar, à primeira vista, como inclusão. Mas a verdade é que essa “gaveta” serve mais para limitar do que para celebrar. Em vez de abrir espaço para que o BTS e outros nomes asiáticos concorram de igual para igual nas categorias principais (onde por números, aclamação e impacto eles já deveriam estar há anos), a Academia preferiu segregá-los.
A recusa do grupo em submeter o projeto à premiação escancara uma contradição antiga do evento. A tentativa da Academia em criar categorias segmentadas para a música internacional é vendida como diversidade, mas na prática funciona como um teto de vidro. Em vez de disputarem em igualdade de condições nas categorias principais artistas não-ocidentais continuam relegados a recortes geopolíticos.
Essa tensão entre a relevância real da música e o conservadorismo da Academia, no entanto, é um sintoma estrutural que precede o grupo sul-coreano. Por exemplo:

Sinéad O’Connor (1991)
A pioneira em bater a porta. Recusou formalmente seu prêmio em protesto contra o viés comercial e a superficialidade da indústria, tornando-se a única artista a rejeitar abertamente um Grammy.

Jay-Z (1999)
Ficou anos sem frequentar a premiação em protesto à falta de espaço para o Hip-Hop — inclusive deixando de comparecer à cerimônia de 1999 após o rapper DMX ser ignorado, apesar de ter dominado as paradas naquele período. Em 2024, ao receber o prêmio de Impacto Global, usou o próprio palco do evento para expor a contradição de a Academia nunca ter concedido a categoria de Álbum do Ano a Beyoncé.

Frank Ocean (2017)
Decidiu nem submeter o lendário Blonde, criticando abertamente o sistema de votação arcaico que ignorava o impacto de jovens artistas negros.

Eminem (2018)
Apontou o dedo para a falta de transparência nos votos e deixou de frequentar a cerimônia, afirmando que rappers costumam ser convidados apenas para garantir audiência para a TV.

Drake (2017/2021)
Chegou a pedir oficialmente para a Academia retirar suas indicações das cédulas de votação, questionando por que artistas negros continuam sendo empurrados apenas para categorias de Rap/R&B, independentemente da sonoridade.

The Weeknd (2021)
Após o estrondoso sucesso de After Hours ser completamente ignorado, cobrou transparência e proibiu sua gravadora de enviar suas músicas por anos. A pressão foi tanta que a Academia acabou sendo forçada a extinguir os comitês secretos de votação.

Ariana Grande (2019)
Deixou de ir à cerimônia após os produtores tentarem podar sua liberdade criativa e ditar o que ela poderia ou não cantar no palco. A cantora ainda declarou que a premiação exigia jogos políticos e favores.
A postura do BTS apenas evidencia um deslocamento de poder na indústria: em um cenário globalizado e dominado pelo streaming, a chancela de uma instituição centenária já não é o único (muito menos o principal) termômetro de relevância. Quando grandes nomes preferem preservar a autonomia de suas narrativas a validar a estrutura do evento, o Grammy é quem mais precisa rever seu papel no ecossistema musical.

