O que sobra para a moda nacional quando a referência é (quase sempre) de fora?

por Karen Merilyn

Historicamente, a moda nacional tem como referência a Europa, com um processo de adaptação do que era tendência lá fora para vestir as elites, por conta da colonização. Isso fez com que os tecidos e códigos de luxo europeus se tornassem símbolo de status, um aspecto que reflete até hoje na forma como consumimos e pensamos moda. 

Mas o que fica de fora quando tanto quem produz, quanto quem consome não considera a cultura nacional ou parece querer adaptá-la aos moldes europeus? Com uma indústria potente e um repertório criativo gigante, o Brasil não sofre por falta de ideia. Ainda assim, muita coisa parece se perder, ou ser ajustada, para caber em um padrão que não nasceu aqui. 

Moda nacional: modelo posa sorridente com blusa canelada pink e saia marrom ampla em ambiente acolhedor.
Foto: Ana Paula Xongani (Reprodução/Instagram)


por que ainda precisamos olhar para fora?

Se a moda brasileira ainda olha para fora para se legitimar, não é por falta de repertório, é por herança. Segundo Ana Paula Xongani, criadora de conteúdo e empresária de moda, esse movimento está diretamente ligado a questões de classe, raça e à lógica histórica que coloca o Norte global como quem decide o que é tendência.  

Por conta disso, boa parte das referências ainda partem de um único lugar, que define o que é elegante e desejável. Enquanto isso, movimentos locais como culturas regionais, estéticas negras e saberes de povos originários seguem invisibilizados, mesmo movimentando consumo e criando linguagem o tempo todo.

Moda nacional: modelo posa em macacão de rede rosa com crochê verde e hot pants azul, em clima ousado.
Foto: DAVID LEE (Reprodução/Instagram)

quais são as consequências disso?

Mais do que estética, a gente perde diversidade. No caso da Xongani, ela percebeu que muitos produtos não funcionavam para ela por ser uma mulher negra. De sapatilhas de balé a meia-calça, passando por tiaras e toucas que não contemplavam cabelos crespos. 

“A unificação [do olhar] é a perda da diversidade da forma mais literal possível. Além de um impacto muito grande na pressão estética, porque se a moda é feita para um tipo de corpo preferencialmente, não vai funcionar para os corpos brasileiros. E aí muita gente tem a tendência de, em vez de comprar uma roupa que se adequa ao seu corpo, tentar mudar o corpo para se adequar a uma roupa. A gente começa a contar uma história única na moda, e as histórias precisam ser plurais”, explica Xongani. 

e se o problema for a tendência?

De acordo com a Ana Paula Xongani, o melhor caminho é abandonar a ideia de tendência. “Quando você rompe com essa ideia de tendência, que é uma ideia de manada, você consegue encontrar a beleza a partir de outros critérios, como qualidade, sustentabilidade, quanto isso funciona para você, para o seu corpo, o quanto daquela roupa ou daquela peça conta a sua história”.

o que dá para fazer diferente

Para as marcas, é necessário muita observação e estudo para além da moda. É treinar o olhar para a música, literatura, arte e tudo que envolve a cultura brasileira, se aprofundando em cada um desses elementos. “Toda referência precisa passar pelo filtro da sua experiência artística, então você pode se embebedar de muitas referências, mas o que sai de você não pode ser diretamente parecido com a referência que você acessou", explica.

como o consumidor pode mudar tudo

A solução para nós, enquanto consumidores, é expandir as referências. “Como a gente vive há muitos anos um olhar extremamente voltado para e Europa e Estados Unidos, acho que um bom exercício é excluir essas referências para ver o que você consegue enxergar, qual é o tamanho do seu horizonte. E a partir do momento que você descobre o tamanho do seu horizonte, ampliá-lo”, diz Xongani.

No fim, sabemos que a nossa moda, nossa cultura e nossa estética são extremamente ricas. O que falta é enxergamos a beleza do que é brasileiro e valorizar quem faz moda sabendo que o centro pode (e talvez deva) estar aqui.