O que sobra para a moda nacional quando a referência é (quase sempre) de fora?
Historicamente, a moda nacional tem como referência a Europa, com um processo de adaptação do que era tendência lá fora para vestir as elites, por conta da colonização. Isso fez com que os tecidos e códigos de luxo europeus se tornassem símbolo de status, um aspecto que reflete até hoje na forma como consumimos e pensamos moda.
Mas o que fica de fora quando tanto quem produz, quanto quem consome não considera a cultura nacional ou parece querer adaptá-la aos moldes europeus? Com uma indústria potente e um repertório criativo gigante, o Brasil não sofre por falta de ideia. Ainda assim, muita coisa parece se perder, ou ser ajustada, para caber em um padrão que não nasceu aqui.

por que ainda precisamos olhar para fora?
Se a moda brasileira ainda olha para fora para se legitimar, não é por falta de repertório, é por herança. Segundo Ana Paula Xongani, criadora de conteúdo e empresária de moda, esse movimento está diretamente ligado a questões de classe, raça e à lógica histórica que coloca o Norte global como quem decide o que é tendência.
Por conta disso, boa parte das referências ainda partem de um único lugar, que define o que é elegante e desejável. Enquanto isso, movimentos locais como culturas regionais, estéticas negras e saberes de povos originários seguem invisibilizados, mesmo movimentando consumo e criando linguagem o tempo todo.

quais são as consequências disso?
Mais do que estética, a gente perde diversidade. No caso da Xongani, ela percebeu que muitos produtos não funcionavam para ela por ser uma mulher negra. De sapatilhas de balé a meia-calça, passando por tiaras e toucas que não contemplavam cabelos crespos.
“A unificação [do olhar] é a perda da diversidade da forma mais literal possível. Além de um impacto muito grande na pressão estética, porque se a moda é feita para um tipo de corpo preferencialmente, não vai funcionar para os corpos brasileiros. E aí muita gente tem a tendência de, em vez de comprar uma roupa que se adequa ao seu corpo, tentar mudar o corpo para se adequar a uma roupa. A gente começa a contar uma história única na moda, e as histórias precisam ser plurais”, explica Xongani.
e se o problema for a tendência?
De acordo com a Ana Paula Xongani, o melhor caminho é abandonar a ideia de tendência. “Quando você rompe com essa ideia de tendência, que é uma ideia de manada, você consegue encontrar a beleza a partir de outros critérios, como qualidade, sustentabilidade, quanto isso funciona para você, para o seu corpo, o quanto daquela roupa ou daquela peça conta a sua história”.
o que dá para fazer diferente
Para as marcas, é necessário muita observação e estudo para além da moda. É treinar o olhar para a música, literatura, arte e tudo que envolve a cultura brasileira, se aprofundando em cada um desses elementos. “Toda referência precisa passar pelo filtro da sua experiência artística, então você pode se embebedar de muitas referências, mas o que sai de você não pode ser diretamente parecido com a referência que você acessou", explica.
como o consumidor pode mudar tudo
A solução para nós, enquanto consumidores, é expandir as referências. “Como a gente vive há muitos anos um olhar extremamente voltado para e Europa e Estados Unidos, acho que um bom exercício é excluir essas referências para ver o que você consegue enxergar, qual é o tamanho do seu horizonte. E a partir do momento que você descobre o tamanho do seu horizonte, ampliá-lo”, diz Xongani.
No fim, sabemos que a nossa moda, nossa cultura e nossa estética são extremamente ricas. O que falta é enxergamos a beleza do que é brasileiro e valorizar quem faz moda sabendo que o centro pode (e talvez deva) estar aqui.
