Precisamos falar sobre vitiligo

por Aline Santos

Você com certeza já ouviu falar sobre vitiligo, uma doença autoimune que causa despigmentação da pele e atinge cerca de 1% da população mundial. Parece pouco, mas isso representa aproximadamente 79,5 milhões de pessoas. E mesmo assim, a doença ainda é pouco conhecida e, às vezes, um tabu até para quem convive com ela. Mas, afinal, vitiligo pode ser transmissível? O que causa a descoloração da pele? Hoje, falaremos sobre e desmistificaremos o assunto.

O vitiligo é considerado uma doença hereditária e autoimune, isso porque a pessoa pode adquirir geneticamente ou desenvolvê-la por conta de traumas emocionais. Apesar de não ser contagiosa e não desencadear nenhum outro problema de saúde físico, quem tem vitiligo é, muitas vezes, alvo de preconceito e olhares maliciosos e, na maioria dos casos, isso impacta no psicológico, acarretando uma série de problemas como depressão e ansiedade.

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Foto: Winnie Harlow (Reprodução/Pinterest)


Muitas celebridades convivem ou conviveram com a doença e algumas delas tratam de forma tão discreta que a maioria das pessoas nem desconfia. Esse é o caso da modelo e empresária brasileira Luíza Brunet, que contou em entrevistas que o estresse na infância foi o que causou o surgimento do seu vitiligo. Já um dos pacientes com a doença mais famosos foi o cantor Michael Jackson, que, por diversas vezes, foi acusado de usar procedimentos estéticos para clarear seu tom de pele.

Outra personalidade que tem vitiligo é Winnie Harlow, uma das maiores sensações no mundo da moda dos últimos anos e capa das mais importantes revistas. A modelo canadense já compartilhou que sofreu bullying durante toda a sua infância, mas provou que essa condição de pele jamais seria um empecilho para o sucesso na sua profissão. Sabemos que a moda precisa abraçar cada vez mais a diversidade e Winnie é um dos exemplos de que estamos no caminho certo.

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Foto: Carolina Clarkson (Reprodução/Instagram)

Para responder as principais dúvidas sobre a doença, conversamos com a dermatologista Dra. Silvia Quaggio, que explicou quais são os sintomas, possíveis causas e tratamentos disponíveis hoje em dia. Também convidamos a modelo e estudante de arquitetura, Carolina Clarkson, que convive com o vitiligo desde os seus nove anos de idade, para contar a sua história de autoaceitação. Continue lendo para conferir essas entrevistas na íntegra.

_dra. Silvia, primeiro de tudo: o que é vitiligo?

S.Q.: Vitiligo é uma doença caracterizada por perda da coloração da pele. As lesões se formam por diminuição ou ausência de melanócitos, que são as células responsáveis pela formação da melanina, o pigmento que dá cor à pele.

_e quais são as causas para o surgimento das manchas?

S.Q.: Essa condição costuma ser hereditária, mas há casos em que as pessoas desenvolvem vitiligo espontaneamente. A causa muitas vezes é desconhecida, mas trata-se de um distúrbio de pigmentação cutânea que pode envolver um ataque ao sistema imunológico das células, que produzem o pigmento. 

_quais são os sintomas dessa condição de pele?

S.Q.: Perda da pigmentação do cabelo, cílios, sobrancelhas ou barba. Manchas brancas em torno das axilas, umbigos e extremidades, como mãos, pés, órgãos genitais, joelhos e cotovelos.

_existe cura ou tratamento para o vitiligo? se sim, qual?

S.Q.: Ainda não existe uma cura definitiva, mas existe tratamento específico, que faz com que a pele recupere parte da pigmentação. Esse tratamento é feito com corticóides tópicos ou sistêmicos, imunomoduladores, psoralênicos, fototerapia e transplante de melanócitos em pacientes clinicamente estáveis - e, quando necessário, com acompanhamento psicológico. Os inibidores da JAK estão sendo estudados e prometem ser grandes aliados no processo também.

_qual é a diferença entre vitiligo e psoríase?

S.Q.: As duas são totalmente diferentes apenas ao olhar. A psoríase é uma doença em que se formam placas secas, avermelhadas e com escamas prateadas ou esbranquiçadas. Já o vitiligo são manchas brancas, lisas a palpação.  

_é verdade que o estresse pode causar ou acelerar uma despigmentação da pele?

S.Q.: Os traumas emocionais podem sim ser um dos fatores que desencadeiam ou agravam a doença. E, portanto, o estresse pode ter relação direta com o aumento do número de manchas na pele.

_quais são os cuidados diários e a longo prazo que uma pessoa com vitiligo precisa tomar?

S.Q.: Para evitar que as lesões se agravem ou mesmo precipitar o surgimento de novas, é aconselhado não usar roupas apertadas ou que provoquem atritos ou pressão sobre a pele. Além disso, diminuir a exposição ao sol e passar bastante filtro solar é essencial. Por fim, controlar o estresse é uma medida muito bem-vinda.

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Foto: Carolina Clarkson (Reprodução/Instagram)

minha história com vitiligo

A modelo e estudante de arquitetura de 23 anos, Carolina Clarkson, dividiu um pouco da sua história e conta que a descoberta do vitiligo veio ainda criança, aos nove anos de idade. "De acordo com minha primeira lembrança, uma professora repara em uma manchinha no meu pescoço, que, de tempo em tempo, mudava de tamanho", relembra.

A doença não foi detectada de primeira e levou um tempo até descobrirem o que eram as manchas. "Passei por três médicos diferentes até receber o diagnóstico correto", conta, "vitiligo, doença autoimune, não contagiosa e que consiste basicamente na perda de melanina em algumas partes do corpo. Um diagnóstico bem direto e simples - mal sabia eu que de simples, não teria nada."

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Foto: Carolina Clarkson (Reprodução/Instagram)

Na pré-adolescência, as manchas pelo corpo da Carol começaram a aumentar. A fase, que por si só já é complicada para qualquer pessoa, foi ainda mais delicada para a estudante, que teve que lidar com um outro problema. "Eu precisei encarar uma sociedade extremamente preconceituosa, além de invasiva", diz, "eu não podia andar na rua em paz porque sempre tinha alguém para me indicar tratamento, contar de um parente que se 'curou' ou até me olhar com pena e, às vezes, nojo também."

O bullying na época tornou as coisas ainda mais difíceis para Carol: "Na escola, não era diferente e, apesar de eu tentar cobrir as manchas com maquiagem e/ou com roupas, a galera notava o vitiligo. Eu já passei por situações bem desconfortáveis, tais como comparação a animais malhados e também à vítimas de queimaduras."

Eu não escondia as manchinhas das pessoas, mas de mim.

A modelo assume que tentou de tudo para esconder e ignorar a doença, mas se deu conta de que estava em um processo de autoaceitação doloroso. "Costumo dizer que eu não escondia as manchinhas das pessoas, mas de mim", diz, "até que em 2015, quando eu tinha 17 anos, uma amiga fotógrafa - com quem trabalho até hoje - me convenceu a fazer um ensaio sem maquiagem para valorização do vitiligo."

A partir daquele ensaio, a vida da Carol mudou. "Me lembro até hoje do que senti quando vi o resultado daquelas fotos: foi a primeira vez que vi beleza na minha pele", conta, "primeira vez que vi arte na minha casa, morando em mim. Minha pele era única e aquilo tinha que ser especial. E foi assim que a arte me curou."

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Foto: Carolina Clarkson (Reprodução/Instagram)

Após o ensaio com as manchas à mostra e sem maquiagem, Carol percebeu que não precisava mais se esconder. "Depois disso, meu processo de aceitação do vitiligo começou de fato, então comecei a usar cada vez menos maquiagem, passei a usar roupas mais frescas e abertas, a prender o cabelo - coisas que eu não fazia de jeito nenhum", relembra, "parei com todo tipo de tratamento que eu fazia também. E num dado momento, eu já não sentia a obrigação de me esconder, nem de ninguém e muito menos de mim."

O vitiligo é o que me motiva a ocupar os lugares, ajudar e inspirar pessoas.

O processo de autoaceitação ainda é uma jornada para a modelo, mas hoje ela diz conviver em paz com a doença. "Eu ainda estou em processo de construção da minha autoestima e acredito que estarei eternamente, já que esse é um processo diário, de autoconhecimento com altos e baixos. Mas, posso dizer com orgulho que o vitiligo não é mais uma questão pra mim. Muito pelo contrário, ele é o que me motiva a ocupar os lugares, ajudar e inspirar pessoas - pessoas como eu e como quem mais se identificar com minha história."

E a modelo ainda manda um recado para a Carol de anos atrás: "tenho muito carinho pela Carol adolescente, porque sei que ela precisou passar por isso para entender muitas coisas hoje. Sem ela, eu não teria chegado aqui."

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