Relíquias modernas: novos clássicos inspirados pelo passado

por Beta Weber

Com as tendências evoluindo e mudando com cada vez mais velocidade, objetos que são normalmente transferidos de geração para geração (pérolas, joias no geral, bolsas, lenços de seda com estampas históricas, relógios) vêm ganhando espaço nas wishlists. O interesse por itens vistos como investimento, movimento que começou na pandemia e ativou o mercado de joalheria, é uma manifestação disso. O crescimento do mercado vintage aponta para a mesma direção: peças que já provaram sua longevidade se conectam com a impressão de que antigamente, com processos mais lentos, tudo tinha mais qualidade.

Em comum, coisas que existem fora do ciclo frenético da indústria e se mantêm relevantes. O foco recai em itens que carreguem nostalgia, memória, mesmo que de um tempo que não necessariamente seja seu. Relíquias que podem ser repassadas um dia, cuja preciosidade tem a ver com história e com valor sentimental.

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@carolyn.chang (Reprodução/Instagram)

Tarefa que pode ser desafiadora, já que muito da moda como sistema é calcada em novidade. Para se adaptar ao cenário, marcas vêm buscando maneiras diferentes de se sobressair e competir com as versões vintage de alguns de seus produtos icônicos.

@personalshopperldnbr (Reprodução/Instagram)

Os sapatos bicolores da Chanel, sempre disponíveis independentemente da temporada (e por isso com presença maciça no mercado de segunda mão), foram repaginados com a chegada de Matthieu Blazy: a essência foi preservada, mas o frescor foi injetado com uma cartela de cores inusitadas e padronagens divertidas. Na prática, futuras relíquias e registros históricos do novo momento da casa francesa.

Os lenços tipo carré, indiscutivelmente emblemáticos, também se tornaram parte desse exercício contemporâneo. A Celine tem em lenços um de seus principais símbolos, mas já não apostava tanto na peça. Michael Rider os trouxe novamente para o centro da marca, experimentando com styling diferenciado e estampas renovadas. 

Os lenços tipo carré, indiscutivelmente emblemáticos, também se tornaram parte desse exercício contemporâneo. A Celine tem em lenços um de seus principais símbolos, mas já não apostava tanto na peça. Michael Rider os trouxe novamente para o centro da marca, experimentando com styling diferenciado e estampas renovadas. 

@dior (Reprodução/Instagram)

Isso também resultou em outro fenômeno curioso: marcas tentando criar novos clássicos, inspirados em relíquias, peças que comuniquem atemporalidade aliadas a um caráter retrô, algo que pareça herdado, mesmo que novinho.

E se a história for manufaturada? Interpretações de itens de outrora, com olhar atualizado e savoir-faire do presente, mas com ambiguidade suficiente para confundir e fazer a gente se questionar se é novo ou garimpado. 

@dior (Reprodução/Instagram)

O cinto com medalhão como fivela surgiu na Celine e na Dior e contém exatamente esse clima de algo antigo herdado. No caso da Dior, o medalhão já fazia parte do arquivo da Maison e Jonathan Anderson optou por colocar o símbolo no cinto. 

Designs simples, porém não sem graça, conquistam espaço, pois o apelo levemente vintage muitas vezes é apenas visual. Bolsas de alça curta, sem logo ou nenhum detalhe, que podem ter sido passadas de avó para neta ou compradas na semana anterior. 

@thelsd (Reprodução/Instagram)

Brocados, materiais nobres, peças que evocam o passado, frequentemente reaproveitando tecidos antigos, mas colocadas em contexto moderno e com sensibilidade de agora. Utilizar técnicas de bordado milenares, resgatar estampas. Isso explica o sucesso de designers como Conner Ives, com suas jaquetas elaboradas e versões do casaco ópera que parecem saídas de um brechó, mas são imbuídas dos códigos da atualidade. 

@christietyler (Reprodução/Instagram)

Na joalheria, isso é ainda mais latente. Colares de pérolas são tradicionais e indispensáveis no guarda-roupa de muitos, porém, até recentemente, a geração mais jovem não se interessava tanto pelo item. Ultimamente, o acessório tem aparecido com força mais uma vez. É atraente a ideia de que mesmo que você enjoe dele em breve, sabe que em vinte anos, ele vai seguir sendo relevante. 

@cecejewelleryofficial (Reprodução/Instagram)

Os signet rings: anéis com a parte superior plana, tradicionalmente gravados com brasões, iniciais ou símbolos de identificação e, séculos atrás, usados inclusive como selos.

Ralph Lauren primavera 2027 (Reprodução/Vogue Runway)

Nas passarelas da última temporada, broches foram um dos detalhes favoritos para elevar composições, com designers tentando adicionar personalidade às produções.

@itsalicewang (Reprodução/Instagram)

Os medalhões não se limitam aos cintos: pulseiras e colares decorados com moedas e similares são apostas.

@tamenewyork (Reprodução/Instagram)

Marcas de joias de nicho, concentradas em produzir itens que se tornaram raridades, não param de surgir: além de brincos, colares etc., elas reintroduzem objetos esculturais como frascos, isqueiros, porta-remédios e até pentes. Preciosidades que caíram em desuso, mas que se tornaram desejáveis mais uma vez e dialogam com o anseio por cerimônia. Pequenos luxos que deixam o cotidiano mais especial através da beleza.

A parte mais legal é a filosofia por trás da ideia: tanto faz se for vintage ou direto da loja, começar o seu próprio arquivo de itens especiais combate a noção de que uma relíquia precisa ser passada de geração para geração.  Você pode ser o ponto de origem.

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