Skinny, cintura baixa, Mounjaro: a moda está repetindo um padrão perigoso?
Se você está acompanhando a Semana de Moda Masculina, percebeu que uma característica comum se sobressaiu na maioria das coleções apresentadas: silhuetas justas, cinturas baixas e muita (mas muita) magreza. O desfile da Prada evidenciou: de acordo com a Tagwalk, as peças skinny somaram em mais de 90% do desfile de Miuccia Prada e Raf Simmons. Mas, afinal, o que isso tem a ver com o momento em que vivemos?
Antes de tudo, é importante salientar que o fenômeno não se restringiu ao vestuário masculino. Também acompanhamos o crescimento do movimento nas passarelas das principais semanas de moda do ano — peças curtas, vestidos ajustados, cintura baixa e muita pele à mostra se unem em um propósito: evidenciar o corpo magro. Isso tudo se interliga com uma facilidade que tem alcançado a população nos últimos tempos, as canetas emagrecedoras.
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a volta dos que não foram?
Ok, você deve estar pensando: “mas não foi sempre assim na moda? A magreza em primeiro lugar?”, e podemos dizer que sim, a moda nunca deixou de privilegiar corpos magros — o caimento era pensado para peças P e as modelagens eram rígidas. A estética heroin chic foi o estopim, Kate Moss era o rosto (e corpo) do ideal de beleza dos anos 90 e essa imagem se perpetuou por muito tempo, até o ínicio dos anos 2010 com a chegada de movimentos de valorização ao amor próprio.
O “Body Positive”, por exemplo, tomou conta da internet a partir dos anos 2010. A ideia de autoaceitação era a meta mais almejada, e, por isso, passamos a ver cada vez mais diversidade de corpos e pessoas em propagandas, mídias e entretenimento. Infelizmente, a ideia não durou muito.
De acordo com um levantamento realizado pela Glamour, a quantidade de modelos Plus Size nas principais semanas de moda do ano foram de 157 no outono/inverno de 2023 contra 81 em 2025.
o impacto no mercado
Reparou na falta de peças em tamanhos maiores nas lojas? Pois é, por conta da queda na demanda de roupas plus size, diversas marcas reduziram drasticamente a produção de peças acima do XGG. Um relatório da Edited mostrou que a varejista de roupas canadense Aritzia reduziu a produção de vestidos 2XL entre seus lançamentos em 5% quando comparado a 2023. Em contrapartida, aumentou a participação de tamanhos menores. A ASOS, britânica, diminuiu a sua variedade de tamanhos maiores em 15%, e, a Reformation, em 46%.
No Brasil, a Renner relatou um crescimento no setor fitness do varejo. De acordo com o CEO Fabio Faccio em entrevista ao InvestNews, o fenômeno reflete o aumento da preocupação com a saúde e bem-estar por parte da sociedade.
Um levantamento da PwC com cerca de 3 mil consumidores assume que um quarto dos usuários de GLP-1, hormônio que regula o apetite e a glicemia, passou a comprar roupas em tamanhos menores, e quase um terço relatou maior satisfação com o próprio corpo. Como consequência à perda de peso, a busca por novas roupas aumenta, impactando novamente o setor varejista.
as celebridades abraçaram o movimento
É impossível falar de magreza extrema sem citar Hollywood. Historicamente, o cinema sempre funcionou como um grande propagador de padrões de beleza, onde o corpo magro costuma ser associado ao sucesso e amor próprio. Dentro e fora das telas, o assunto tem reacendido o debate quando pensamos em representatividade e saúde física e mental.
Atualmente, o movimento tomou conta dos tapetes vermelhos de festivais de cinema e a temática ganhou força após celebridades apresentarem mudanças bruscas na aparência. Nomes como Ariana Grande, Emma Stone e Demi Moore foram símbolos da crescente da magreza extrema no entretenimento. Vale lembrar que, em um cenário tão exposto quanto o showbiz, os riscos relacionados à pressão estética são exponenciais — quando a moda se volta para o magro, a tendência é que os nichos da arte sigam o mesmo caminho, principalmente com a ascenção dos chamados “atalhos medicos”.
o ciclo se repete?
Olhando para essas três frentes — passarelas, vitrines e tapetes vermelhos —, fica difícil não notar que estamos diante de um movimento que se auto impulsiona. De um lado, a moda dita uma estética; do outro, a ciência (ou melhor, a farmacologia) oferece os meios para alcançá-la com uma rapidez sem precedentes. As canetas emagrecedoras não criaram o culto à magreza, mas funcionam como um acelerador de um ideal que, como vimos, nunca deixou de existir, apenas hibernou por uma década sob o discurso da diversidade.
Resta acompanhar se esse ciclo vai se sustentar com a mesma força nas próximas temporadas, ou se, assim como aconteceu no início dos anos 2010, surgirá um novo movimento de contrapeso. O que parece certo é que, enquanto a moda continuar sendo um termômetro tão sensível do que a sociedade valoriza (e do que ela teme), o corpo continuará sendo o principal campo de batalha dessas disputas simbólicas.


