De Jack Sparrow ao capitão Hook, piratas são parte fundamental do imaginário coletivo e figuras constantes na cultura pop e na literatura. Nessa temporada, a moda revisita o visual característico, alimentado tanto por referências históricas quanto cinematográficas, mas reinterpretado para os dias de hoje. Pense em um conjunto de peças funcionais para os inevitáveis combates, misturado a tesouros encontrados ao longo do trajeto, vindos do fundo do mar ou de baús roubados.
Camisas fluidas com mangas bufantes, coletes, detalhes de babado e amarrações, jaqueta militar, lenços, corseletes, cintos decorados, contraste com materiais de peso como couro, assimetria, toque artesanal, elementos românticos, desconstrução, abundância de acessórios e calças usadas por dentro da bota de cano alto. Já deu para visualizar, né?
Um pouco rock’n’roll, um pouco românticos, piratas sempre navegaram entre romance e agressividade, e essa dualidade é extremamente sedutora. Ela se torna ainda mais relevante agora, já que esse universo que mescla violência e magia, moldado por uma atitude transgressora, conversa diretamente com duas das maiores influências do momento: o desleixo intencional e cool do indie sleaze e a fluidez, naturalidade e liberdade do boho.

Mas antes de falarmos sobre o presente, uma breve volta ao passado para lembrar que a relação da moda com a estética pirata existe há muito tempo. No início dos anos 80, Vivienne Westwood, ao lado de Malcolm McLaren, identificou a essência punk e todo o potencial criativo contido nesses personagens, e seu debut nas passarelas foi justamente com a icônica coleção “Pirate”. Em seguida, nomes como Jean Paul Gaultier, John Galliano e Alexander McQueen também se aventuraram pelo tema, resultando em criações emblemáticas. Para os nerds de plantão (sintam-se abraçados), vale pesquisar as coleções Techno Romance (Outono/Inverno 2001, de Galliano) e Irere (Primavera/Verão 2003, de McQueen).
a volta dos piratas na moda
Confirmando sua natureza cíclica, a influência se manifesta novamente na moda, com os desfiles de verão 26 transbordando de referências ao estilo dos piratas. Na McQueen, Sean McGirr voltou aos arquivos da marca para entregar uma sucessão de looks compostos por diversos itens emblemáticos do arquétipo. Na Balmain, Olivier Rousteing trouxe os tons terrosos, as botas enrugadas e a silhueta fluida. Na Isabel Marant, o clima nômade tomou conta das criações de Kim Bekker. Já na Blumarine, o jeans skinny aparece com make borrada à la indie sleaze e camisa de babados em chiffon.

Na Ferragamo de Maximilian Davis, uma versão menos óbvia e impossivelmente chique surge com lenços de seda amarrados no quadril. E na Dior de Jonathan Anderson, os chapéus meio capitão Hook roubaram a cena. Para finalizar, Elena Velez e Dilara Findikoglu trouxeram o lado mais subversivo e místico que remete à Tia Dalma, interpretada por Naomi Harris, na série de filmes da Disney.
como incorporar a estética no dia a dia
Mas e na prática, dá para aderir ao espírito dos piratas sem cair no caricato? Sim! Com estidos assimétricos, que remetem a náufragos, em tons claros e de apelo delicado combinados com botas de cano alto; cintos e corseletes marcando a silhueta e trazendo definição a peças leves, tipo uma Elizabeth Swann moderna e mix de texturas e styling com lenços.
Além disso, dá para apostar em jaquetas de inspiração militar usadas com peças de vibe romântica, sobreposição de camisas amplas com colete, calça balonê com corselet arrematado por colares, braceletes e lenço na cintura, além de peças com amarrações e cintos sobrepostos.
Y2K encontra os anos 70 e vale reimaginar o visual com toques dissonantes, como a bota western. E não precisa se jogar nos acessórios. Dá para se inspirar de maneira mais sutil e igualmente estilosa.
Como explicar esse retorno agora? Existem vários motivos. Anti-heróis, aventureiros, rebeldes, piratas sempre foram símbolos de liberdade, e essa atitude não conformista ressoa com o cenário atual de guerras e crises socioeconômicas. Há também uma clara reação ao minimalismo impecável de estéticas como “clean girl” e “quiet luxury”. E, claro, o desejo coletivo de escapar da realidade, puxado pela nostalgia de histórias típicas da infância, como Piratas do Caribe, Peter Pan e A Ilha do Tesouro.
