Há quem diga que é cada vez mais difícil inovar na moda, mas alguém deveria avisar isso à Iris van Herpen. Na temporada de outono 2026 de alta-costura, ela fez de novo, colocando na passarela um vestido em parte feito de plasma. É isso mesmo. Para quem acompanha sua trajetória, o fato não necessariamente surpreende, apesar de encantar. Há quase duas décadas à frente de sua maison, a designer holandesa vem desafiando os moldes tradicionais da couture com criações sublimes que unem tecnologia, natureza e savoir-faire artesanal. A seguir, a gente conta tudo o que você precisa saber sobre Iris van Herpen.
As origens
Nascida na pequena cidade de Wamel, Iris cresceu em uma família de espírito hippie, do tipo que não tinha TV nem computador em casa. Em compensação, as artes eram bem-vindas: balé, pintura e até a prática de violino ocupavam seus dias. O primeiro contato com a moda veio ainda na infância, ao descobrir, no sótão da avó, um verdadeiro acervo de roupas e figurinos de outras épocas. Mais tarde, já na adolescência, as aulas de costura consolidaram seu interesse, culminando na decisão de cursar Fashion Design na ArtEZ University of the Arts, em seu país natal.
As primeiras experiências profissionais vieram nos ateliês de Alexander McQueen e da também holandesa Claudy Jongstra, artista têxtil especializada em fibras naturais. Em 2007, ela decidiu abrir seu próprio ateliê.
A maison
Os primeiros passos na carreira informaram muito da identidade que van Herpen viria a desenvolver. É possível observar características das duas casas por onde ela passou antes de iniciar a própria etiqueta: de McQueen, o caráter experimental e as formas orgânicas com inspiração na natureza; de Jongstra, a atenção aos materiais e à pesquisa têxtil.

O reconhecimento não demorou a aparecer: a primeira coleção, confeccionada utilizando a estrutura de guarda-chuvas, já a colocou em destaque e teve parte comprada pelo Groninger Museum.

Em 2011, apenas quatro anos após a abertura da marca, ela passou a integrar o calendário oficial da Semana de Alta-Costura de Paris. Organizado pela Chambre Syndicale de la Haute Couture, o evento mega restrito reúne maisons e estilistas que atendem aos critérios rigorosos estabelecidos pela instituição.
Hoje em dia, cerca de 20 pessoas trabalham de maneira fixa no ateliê localizado em Amsterdã. Porém, devido ao espírito colaborativo da grife, esse número pode variar bastante dependendo do projeto. A proposta reduzida também se reflete no calendário de desfiles: atualmente, Iris limita-se a uma coleção por ano e não tem planos de expandir para o prêt-à-porter, optando por priorizar as pesquisas minuciosas e os processos que envolvem técnicas complexas e inspirações multidisciplinares.

A filosofia
Ateliê ou laboratório? Os dois. Iris não pensa em disciplinas. Classicamente, a alta-costura sempre foi um espaço de experimentação, onde novos materiais, técnicas e processos são testados antes de impactar o restante da indústria e, para van Herpen, continua sendo. Sua interpretação da couture em seu estado máximo consiste em unir as práticas tradicionais do métier ao que há de mais inovador na ciência, sempre permeada pelo intangível e por um processo igualmente intuitivo.

Considerando-se designer e artista, o corpo é seu ponto de partida, levando o conceito de wearable art a outro nível. Em entrevista ao Brooklyn Museum, van Herpen disse que, quando cria modelos sob medida, pensa nos vestidos como retratos íntimos, nos quais tenta unir o universo particular da pessoa ao seu, traduzindo a essência da cliente em materiais e shapes.
O conceito de feminilidade orgânica é o propulsor de seus designs, assim como o movimento, influência dos seus anos como bailarina.
Curiosamente, ela alega não começar uma coleção com moodboards ou croquis. Seu modus operandi parte de ideias ou do trabalho direto sobre o manequim, passando por diferentes iterações até chegar à forma “final” da peça. Seu processo é quase meditativo e inevitavelmente lento, já que envolve pesquisa extensa e a implementação de técnicas às vezes inéditas na moda.

As referências
A gama de inspirações impressiona e vai da arquitetura à biologia, incluindo áreas como matemática, neurociência, astronomia, acústica e oceanografia.
Forças invisíveis como eletricidade, magnetismo, ondas sonoras, sinapses e campos de energia são temas recorrentes, transformados em formas, volumes e texturas.
A natureza é uma de suas principais musas, mas, em vez de reproduzir literalmente os fenômenos naturais, van Herpen busca compreender os mecanismos que os regem, transitando confortavelmente por conceitos como cristalização e biomimética a fim de reinterpretá-los e materializá-los em suas criações.

O espaço sideral, o cosmos, assim como os quatro elementos, particularmente a água, reforçam essa lista.

A cartela de cores neutra, com efeitos translúcidos ou iluminados, é recorrente, mas tons vibrantes também têm vez. As combinações costumam nascer da flora, da fauna e de ambientes inóspitos, que contribuem para a aparência surreal de muitas de suas roupas.
Criaturas sobrenaturais, formas biomórficas, organismos marinhos e uma atmosfera que remete a outros mundos conferem um ar de ficção científica aos seus designs, mesmo que a grande maioria esteja calcada em pesquisas científicas reais.
Silhuetas imponentes e uma atitude forte empoderam as figuras femininas, evocando imagens de feiticeiras, guerreiras e seres mitológicos.

A tecnologia
Pioneira, Iris foi a primeira estilista a apresentar um vestido confeccionado com impressão 3D na alta-costura. O contato com a técnica surgiu por meio de pesquisas sobre arquitetura, e a vontade de aplicar o método em seu próprio trabalho tornou-se irresistível, já que ele permitia explorar estruturas até então impossíveis de obter com a costura tradicional.

Apesar de ser comumente associada ao futurismo, para van Herpen a tecnologia não substitui o trabalho manual. Ela considera o corte a laser, a programação e outros métodos tecnológicos ferramentas que ocupam o mesmo espaço de uma agulha ou de uma tesoura.
Surpreendentemente, boa parte de suas criações ainda é desenvolvida artesanalmente. Um mesmo vestido pode combinar impressão 3D, camadas de seda plissadas à mão e elementos transparentes costurados individualmente para formar estruturas tridimensionais.

As colaborações estão no centro de seu trabalho, e a variedade de profissionais com quem ela já colaborou ilustra a diversidade de seus interesses, entre eles arquitetos, engenheiros, físicos, biólogos e especialistas em novos materiais. Seus parceiros mais conhecidos incluem instituições como o CERN e o MIT e o arquiteto Philip Beesley. Van Herpen divide essas parcerias em dois tipos: aquelas voltadas para solucionar desafios técnicos específicos e outras que provêm da curiosidade mútua entre criadores, sem um objetivo definido, evoluindo naturalmente ao longo dos anos.

Trabalhando e desenvolvendo técnicas durante anos antes de finalmente revelá-las ao público, um de seus focos atuais é a impressão 4D, tecnologia capaz de responder ao ambiente e se transformar ao longo do tempo. Mas ainda vai demorar até que os experimentos estejam prontos para vir a público. Em torno de 4 ou 5 anos, segundo estimativa da designer.
A coleção Voltage, de 2013, foi um divisor de águas em sua carreira. O intuito era materializar energia e movimento através de módulos concebidos para nunca permanecerem completamente imóveis, dando a impressão de que as peças estavam vivas.
O vestido parcialmente composto por plasma, apresentado na temporada de Outono 2026, dá continuidade à sua longa investigação de novos materiais, que já passou por algas vivas, micélio, biopolímeros, além de tecidos tratados para reagir à umidade e estruturas desenvolvidas por meio de processos como a cristalização.
Os museus
Roupas, ficção científica ou obras de arte? As definições se confundem quando se fala da obra de Iris e, portanto, não surpreende sua presença nos acervos permanentes de alguns dos museus mais importantes do mundo, como o Metropolitan Museum of Art, o Victoria and Albert Museum e o Musée des Arts Décoratifs, além de já ter ganhado exposições inteiramente dedicadas ao seu trabalho.
No momento, sua exposição itinerante Sculpting the Senses está em cartaz no Brooklyn Museum, em Nova York, onde permanecerá até dezembro de 2026.

As celebridades
Suas criações parecem feitas para o palco, culminando em colaborações com nomes como Björk, Beyoncé, Rosalía e Lady Gaga, que já usaram seus designs tanto em figurinos de turnês quanto em videoclipes e performances.
No tapete vermelho, seus vestidos também são presença constante. Agradando tanto nomes que prezam por um estilo mais autoral e conceitual, como Tilda Swinton, Cate Blanchett e Tessa Thompson, quanto às que preferem produções mais delicadas, como Ariana Grande.
Eventos importantes que demandam impacto, como o baile do MET, o Festival de Cannes e cerimônias de premiações, quase sempre contam com looks assinados pela maison. Vide o vestido-bolha usado por Eileen Gu no MET Gala deste ano.

