Tudo sobre a nova era da Celine

por Beta Weber

Desde a insana dança das cadeiras do ano passado, culminando em 14 estreias só na temporada de verão 2026, algumas marcas vêm monopolizando o debate dentro da moda. Mas tem uma, bem menos comentada, que vem diretamente influenciando as tendências e devolvendo fôlego a velhos conhecidos. A quem se deve a profusão de cores primárias, jazz shoes, óculos oversized, e o combo de bijuterias artesanais com alfaiataria que vem invadindo os feeds mais estilosos? A resposta é Celine e seu atual diretor criativo, Michael Rider. 

A Celine acaba de estrear em vigésimo na lista de marcas mais quentes da Lyst, com seu sapato de jazz figurando em quarto no ranking de produtos mais desejados. 

Assumindo o controle da marca no ano passado, o norte-americano Rider é avesso a grandes conceitos ou manifestos intelectuais. Seu foco é em roupas para usar todos os dias, baseado em fórmulas fáceis, shapes conhecidos, onde o styling é a estrela. O design não é revolucionário, mas a ideia de emprestar um olhar diferente ao seu armário pode ser. O estilista descreve seu trabalho como mais intuitivo do que estratégico, e isso fica aparente nas criações: aspiracionais, espontâneas e, acima de tudo, usáveis. 

@celine (Reprodução/Instagram)

Ecos de Phoebe Philo e Hedi Slimane, seus antecessores na casa, se fazem presentes, mas a entrega é toda Rider. Recém-chegado da Polo Ralph Lauren, onde ficou sete anos e ajudou a revitalizar a etiqueta, ele aproveita a expertise adquirida para aplicar uma leitura preppy americana aos códigos parisienses. Revisitando o lado burguês das origens da Celine e injetando a modernidade exigida pelo presente. 

Além disso, ele tem conhecimento de causa, já que essa não é sua primeira passagem na marca. Michael foi diretor de design durante o período de Philo. Portanto, muitos dos elementos que remetem à época na verdade tiveram participação dele, não sendo apenas homenagem, mas sim, partes de uma estética que ele ajudou a construir.

A Celine é parte do LVMH, maior conglomerado de luxo do mundo, e as expectativas são altas. Por isso mesmo, o approach pragmático continua nas estratégias implementadas, garantindo a saúde do business enquanto o lado criativo se organiza. Entre as decisões acertadas, o revival de hits da era Philo como a bolsa Luggage e os colares com iniciais. E a preservação de boas sacadas de Slimane como o investimento em produtos que ostentam o nome da grife, expandindo a oferta através de merchandising luxuoso em forma de moletons e camisetas. Assim como o monograma Triomphe, que vira pop, saindo do reino dos acessórios para estampar biquinis.

Essa habilidade de mesclar os universos anteriores é fundamental para não alienar os consumidores fiéis ao indie chic de Slimane, e igualmente resgatar os fãs da sensibilidade funcional e sofisticada de Philo. O segredo de Rider está nesse equilíbrio e nas pequenas doses de excentricidade.

Depois de toda essa contextualização, vamos ao grande diferencial dessa nova era: o styling incrível, que pode ser aproveitado na prática, mesmo se você não for cliente da grife. A gente analisou os três desfiles que rolaram até agora e separou os melhores truques e fórmulas para se inspirar e roubar. 

Mil e uma maneiras de usar lenço: Um dos carros-chefe da marca, o lenço de seda, retorna ao centro das atenções, e as formas de incorporar o acessório surpreendem. Metade por dentro da lapela, em triângulo a la cowboy, amarrado soltinho, mais displicente, esvoaçante na clutch do tipo carteira e até enrolado várias vezes cobrindo uma parte do rosto. 

Sobreposições: Camadas são infalíveis para trazer dimensão ao look, e na Celine as sugestões evitam cair no óbvio, como na sobreposição de duas camisetas leves. A gola rolê surge consistentemente tanto por baixo de suéteres de gola v profunda, quanto tricôs ajustados e até camisas. Cardigãs agem como capas ou mantas dependendo da composição, assim como botões estrategicamente abertos, ambos ótimos truques para redesenhar as silhuetas. 

A força dos acessórios: Anéis em todos os dedos, brincos descombinados, colares coloridos e empilhados, pulseiras com berloques por cima das mangas, óculos maxi, luvas de couro, broches e bottons usados em lugares inesperados, como no ombro, chapéus de todos os tipos do pillbox ao bucket. A Celine de Rider não economiza nos complementos. 

Foco no cinto: Os cintos roubam a cena e ganham diversas interpretações, statement com fivela imponente, vários ao mesmo tempo, decorados com charm, amarrados e trançados, deslocados para transformar a silhueta do trench coat, em corrente ou metalizados para injetar glamour, ou até mais estreitos e clássicos com logo discreto.

Os acessórios artesanais: Itens de apelo artesanal em miçangas coloridas ou ráfia têm peso importante e migram para  composições urbanas, se misturando à alfaiataria e à peças estruturadas. As produções invernais são adornadas por colares de conchas e motivos do fundo do mar, unindo universos dissonantes para compor produções de personalidade. 

Acabamento ou a falta de: Punhos da camisa dobrados displicentemente e visíveis por baixo do blazer, a jaqueta de couro que aparece amarrada na cintura, a manga extra longa, o colarinho desalinhado, trazendo realismo e inspiração para incorporar a estética da Celine ao cotidiano. 

Sem medo das cores: As cores primárias têm preferência, aparecendo em composições monocromáticas e nas estampas. O ton sur ton e o color blocking despontam como alternativas mais ousadas. Quem prefere detalhes sutis, pode apostar nos pontos de cor isolados: O look P&B é arrematado por jazz shoe em lima, e o conjunto de alfaiataria afiado ganha a companhia da dupla luvas e bolsa roxa.

Em seus melhores momentos, a nova era da Celine apresenta um ponto de vista claro, ancorado em clássicos e encontrando formas de atualizar equações familiares através de emoção. Em outros, o excesso de informação pode distrair um pouco do objetivo final. No release do desfile mais recente, a marca se define como ‘uma mistura de velho e novo que parece urgente e inspiradora, criando as coisas que todos sonhamos em encontrar e vestir’. Explicitando a tese principal e a fase sob comando de Michael Rider

E vocês, o que estão achando da nova era da Celine?