Como o luxo redescobre o valor do feito à mão em tempos de inteligência artificial

por Izabela Suzuki

Durante anos, a inteligência artificial foi vendida como o futuro inevitável da criatividade. Mas, ironicamente, quanto mais acessível e popular ela se torna, mais o luxo parece correr na direção oposta. Em meio a campanhas criticadas, consumidores desconfiados e uma estética cada vez mais padronizada, grifes e grandes marcas começam a resgatar o valor do trabalho manual, do desenho 2D e da assinatura humana, levantando uma pergunta incômoda, que já circula em memes e debates online: IA está virando “coisa de pobre”?



quando o feito à mão vira o novo luxo

Nos últimos anos, veículos internacionais de publicidade e moda vêm apontando um movimento claro: o craft, a imperfeição e o toque humano voltaram a ser vistos como símbolos de valor cultural e econômico.

De acordo com uma análise publicada pelo site britânico LBB (Little Black Book), o “não-uso” de IA começa a ser tratado como um novo tipo de "flex criativo". A lógica é simples: se todo mundo pode gerar imagens perfeitas em segundos, o que realmente se torna exclusivo é aquilo que exige tempo, técnica e presença humana.

Esse mesmo discurso aparece em reportagens da Vogue US, que vêm destacando o crescimento do DIY (Do It Yourself), do desenho manual e de criadores que fazem questão de mostrar o processo — e não apenas o resultado final. O erro, a textura e o gesto humano deixam de ser defeito e passam a ser narrativa.

Bolsa lilás com alça fina preta e detalhe dourado, flutuando entre águas escuras e medusas rosa.
Foto: Uma das bolsas da campanha feita à partir de IA da Valentino em 2024 (Reprodução/Instagram)

O choque ficou explícito em 2024, quando a Valentino enfrentou críticas após divulgar uma campanha de bolsa criada com imagens geradas por inteligência artificial. A repercussão foi negativa principalmente nas redes sociais, onde consumidores questionaram se uma maison conhecida pelo artesanato e pela excelência técnica deveria recorrer a esse tipo de recurso.

Segundo análises publicadas pelo portal Folio3 AI, muitos comentários classificaram o material como “preguiçoso”, “genérico” ou “indigno de uma marca de luxo”. O problema não era exatamente a tecnologia, mas o que ela simbolizava: economia de tempo, padronização e ausência de mão humana, ou seja, tudo o que o luxo historicamente promete não fazer. Aqui, a IA deixa de ser futurista e passa a ser vista como um atalho fácil demais, criando um ruído direto com o posicionamento premium dessas marcas.

"sem ia, sem filtro": o discurso da autenticidade

Enquanto algumas marcas enfrentam backlash, outras decidiram se posicionar de forma clara. A Aerie, marca do grupo American Eagle, reforçou em campanhas recentes que suas imagens não utilizam IA nem edição pesada — uma resposta direta à saturação visual criada por corpos, rostos e cenários artificiais.

De acordo com reportagens da Vogue Business, esse tipo de posicionamento cresce à medida que consumidores passam a desconfiar do que é “real” ou não nas imagens de moda. A autenticidade, antes implícita, agora precisa ser declarada. Mesmo fora do luxo tradicional, o discurso é o mesmo: o humano virou diferencial competitivo.

Botina caramelo de couro com sola clara e flores silvestres presas.
Foto: Campanha Kate Spade (Reprodução/Instagram)

Nos bastidores, porém, a relação com a IA é mais complexa. Reportagem recente do Business Insider mostra que marcas como Coach e Kate Spade utilizam inteligência artificial para agilizar processos — como testes de cores, formas e variações —, mas fazem questão de reforçar que a decisão final continua sendo humana.

Designers entrevistados pelo veículo afirmam que a IA funciona como ferramenta, não como criadora. A mensagem é clara: o valor não está no prompt, mas no olhar treinado de quem decide o que fica e o que sai.

Fora do discurso institucional, a pergunta que dá título à pauta já circula com força na cultura digital. Em fóruns como o Reddit e em debates no X (antigo Twitter), usuários discutem se a IA não estaria caminhando para o mesmo lugar de outras tecnologias massificadas: acessível, rápida — e, por isso mesmo, desvalorizada simbolicamente.

@pietroreis

A IA virou coisa de pobre? Já faz algumas semanas que venho reparando como enquanto algumas marcas apostas nas imagens feitas por IA generativa para comunicar seus produtos, outras voltam aos artistas para tal tarefa - e dá pra perceber que a diferença é nítida entre esse segmentos. Parece que marcas voltadas para o popular estão abusando de imagens que deixam claro a estética IA generativa, enquanto as de luxo estão indo pra outro caminho. Mas é mais complexo do que parece. E essa palavra é ótima, “parece”. Isso porque algumas empresas de alto padrão estão sim usando IA nas suas comunicações, no entanto, estão preocupadas em não parecer que usaram. Pois é, bem como o Michel Alcoforado pontuou no “Coisa de Rico”, “o veredito da autenticidade de qualquer produto de luxo vem da capacidade de usá-lo de maneira adequada.” E mesmo que não estejamos falando de um produto, acho que essa frase faz muito sentido. Não acho que exista certo ou errado nessa história - apesar de ser cada vez mais contra o uso de IA - mas acho um pouco preocupante como quem não tem acesso ao luxo vai ficando à mercê dessa estética empobrecida. E você, o que acha? Comenta aqui sua opinião.

♬ som original - Pietro Reis

Em posts populares, a ideia se repete: enquanto o digital se torna padrão, o analógico vira luxo. O tempo vira privilégio. O trabalho manual vira status. Não se trata exatamente de renda, mas de capital cultural.

No fim das contas, a discussão é mais sobre o que a IA representa do que aboli-la do meio criativo. Em um mundo onde tudo pode ser gerado, copiado e otimizado, o luxo parece apostar justamente no oposto. Então, talvez a pergunta não seja se a IA é “coisa de pobre”, mas sim: o humano virou o novo artigo de luxo?