É impossível não citar alguns clichês quando o assunto é Valentino Garavani, lendário designer italiano que faleceu em janeiro de 2026, aos 93 anos. Dos vestidos deslumbrantes ao vermelho inconfundível que leva seu nome, suas criações, carregadas de romance, glamour e uma elegância atemporal, ajudaram a moldar a moda italiana como a conhecemos.

A figura característica, com seus ternos impecáveis, bronzeado permanente e um lifestyle tão luxuoso quanto seus designs, reforçou a construção do mito ao seu redor. Sua morte marca o fim da geração dos grandes costureiros do século 20, como Cristóbal Balenciaga, Christian Dior, Hubert de Givenchy e, mais recentemente, Giorgio Armani. Não por acaso, o documentário sobre sua vida, lançado em 2008, ganhou o título de “Valentino: O Último Imperador”. A seguir, a gente conta tudo sobre a trajetória do homem que criou uma das marcas mais importantes da história da moda.
a origem
Natural do Norte da Itália, Valentino Clemente Ludovico Garavani (ufa) nasceu em 1932, na cidade de Voghera. O apreço por beleza, artes e uma atenção aos detalhes fora do comum se manifestou cedo. O grau de exigência era tão alto que, desde a infância, usava sapatos e camisas feitos sob medida.

Aos 17 anos, com o apoio total da família, foi para Paris estudar na renomada École de la Chambre Syndicale de la Couture. Após a formatura, ainda na cidade-luz, Garavani passou pelos ateliês de alguns mestres, trabalhando por dois anos com Guy Laroche e cinco anos com Jean Dessès. As experiências esculpiram o rigor técnico e o olhar preciso para proporção e acabamento que se tornariam pontos inescapáveis de sua obra.

o início
Em 1959, Valentino retornou a Roma para abrir seu próprio ateliê. A coleção de estreia foi elogiada, mas seu gosto por gastos extremos em prol dos melhores tecidos e fornecedores não era compatível com o orçamento de um negócio iniciante, e problemas financeiros começaram a surgir. A solução só viria no ano seguinte, com um encontro que mudaria sua vida para sempre.

Em 1960, em um jantar despretensioso, ele conheceria Giancarlo Giammetti através de amigos em comum. O encontro foi o pontapé inicial para uma parceria pessoal e profissional que atravessou décadas e foi fundamental para o sucesso da maison.
Em pouco tempo, Giammetti, então estudante de arquitetura, decidiu largar a faculdade para trabalhar ao lado do jovem estilista. Graças à presença do novo sócio, responsável por toda a parte administrativa, Valentino pôde se dedicar inteiramente ao processo criativo e desenvolver sua visão como couturier.

Daí em diante, as coisas foram de vento em popa. Com funções bem definidas, cada um pôde se concentrar em seus pontos fortes, e a sinergia do casal foi o motor perfeito para garantir a consolidação e a longevidade da marca. O caso de amor chegou ao fim doze anos depois, mas os dois seguiram grandes amigos e trabalhando juntos até o final.
O próximo marco veio dois anos depois, em 1962, com a coleção desfilada no Pitti Palace, em Florença. Com uma sucessão de vestidos impecavelmente construídos, a nova maison atraiu atenção internacional. O impacto foi tão grande que marcou a primeira vez que a Vogue francesa dedicou uma capa a um designer italiano. O gesto foi essencial para a prosperidade da grife, mas também para a indústria da moda italiana, que viu as portas se abrirem para outros talentos da região.

a expansão
O sucesso foi se consolidando e, no final dos anos 60, a Valentino abriu lojas de prêt-à-porter em Milão e Roma. Com o negócio mais estável, era hora de conquistar o mercado norte-americano, e Garavani passou a se dividir entre Europa e Estados Unidos.

A Nova Iorque da época, no auge da boate Studio 54, influenciou seus designs, que se tornaram mais modernos e em sintonia com os tempos atuais, perdendo um pouco da rigidez anterior. Em 1975, transferiu seus desfiles para Paris, onde são apresentados até hoje.

A consolidação internacional também passou pela diversificação de produtos. O período nos Estados Unidos resultou em uma linha de jeans e, em 1978, o perfume homônimo Valentino marcou a entrada da maison no mundo da perfumaria. A expansão seguiu com a abertura de boutiques em Londres, Paris e Tóquio.
Nos anos 80, Valentino começou a explorar silhuetas diferentes, ampliando seu repertório, mas sem abandonar a essência couture nem o vermelho como assinatura. No mesmo período, lançou a Oliver, etiqueta voltada para jovens e crianças, expandindo ainda mais o universo da maison, sem diluí-lo.
Desde o fim da década de 90, quando os fundadores venderam o negócio para o grupo italiano HdP, a maison passou por diversas mudanças de controle acionário. Em 2002, foi adquirida pelo grupo Marzotto. Dez anos depois, em 2012, o Mayhoola, fundo de investimentos do Qatar, comprou a grife. Em 2023, a Mayhoola firmou um acordo estratégico com o grupo Kering, que adquiriu uma participação minoritária na Valentino, com a opção de comprar a totalidade da empresa até o final da década, indicando uma possível incorporação completa ao portfólio do conglomerado francês, que já detém nomes como Gucci e Balenciaga.

códigos e marcas registradas
“Elegância é o equilíbrio entre proporção, emoção e surpresa.” A frase do couturier resume bem seus códigos. Unindo o espírito italiano de glamour e feminilidade à excelência da alta-costura francesa, seu objetivo não era revolucionar ou provocar, mas sim deslumbrar.
No quesito estampas, o leque de opções era extenso, passando por poás, florais, animal print e abstratas. Obcecado por perfeição e detalhista ao extremo, mesmo quando se aventurava em elementos mais ousados, suas criações eram permeadas por um clima aristocrático.
O excesso controlado era outro ponto central e, graças à sua maestria como designer, Garavani sempre soube utilizar brilhos e acabamentos luxuosos, como plumas ou bordados, sem perder a sofisticação.

Ele adorava uma boa festa, e suas roupas refletiam essa essência hedonista. A mulher Valentino gosta de chamar atenção, de se sobressair, mas aposta em composições classicamente executadas, elevadas por detalhes como laços, babados e o uso de materiais nobres como chiffon e renda.

o vermelho Valentino
As cores têm papel significativo na história da maison e a principal delas é o vermelho. Tão sinônimo da grife, que posteriormente ganhou nome oficial na cartela da Pantone — o Rosso Valentino, composto por uma mistura bem específica de 100% magenta, 100% amarelo e 10% preto.
O amor pela tonalidade veio ainda na adolescência, quando, em uma viagem à Espanha, assistiu à ópera Carmen e se encantou com os figurinos no palco, as cortinas do teatro e as mulheres na platéia portando a cor. Seu primeiro vestido vermelho surgiu logo na coleção debut La Fiesta, de 1959, aparecendo desde então em todas as coleções e se consagrando como símbolo permanente da casa.
Em 1999, para comemorar os 40 anos da casa, uma coleção composta exclusivamente por 40 vestidos vermelhos foi apresentada.

o branco Valentino
Em janeiro de 1968, a icônica coleção branca foi apresentada, gerando mais uma cor importante para a maison. As criações monocromáticas, que mesclavam pureza formal com romantismo em peças de alfaiataria delicadamente bordadas, serviram de contraponto à moda colorida e psicodélica que dominava o período.
o logo
A famosa logomarca V também surgiu na coleção histórica e não foi bem recebida inicialmente. Críticos alegaram que a inicial visível era muito comercial e não combinava com o estilo elevado da Valentino. Apesar disso, o designer manteve o novo detalhe, tornando-se um dos primeiros a adicionar logos em suas criações.
Na era pós-fundador, dois elementos se destacam como marcas registradas modernas.
o P&B
A combinação de cores mais clássica de todas, o preto e branco, sempre teve presença garantida, com o contraste cromático servindo como ferramenta para destacar ainda mais silhuetas ou explorar estampas de maneira refinada. Em especial, as listras no combo.
rockstud
Vistos pela primeira vez na temporada de inverno 2010, os sapatos com aplicações de spikes, batizados de Rockstud, rapidamente se tornaram um fenômeno comercial, sendo responsáveis por vendas estimadas em 152 milhões de dólares entre 2014 e 2019. Em 2016, a linha foi expandida para bolsas, óculos e outros acessórios, tornando-se um dos pilares comerciais da casa.

Recentemente, Alessandro Michele, atual diretor criativo da marca, apresentou sua versão do Rockstud na coleção Resort 2026.
pp pink
Dando continuidade à tradição da maison com cores intensas, no inverno 2022/23 Pierpaolo Piccioli introduziu o PP Pink, uma versão vibrante de rosa desenvolvida com a Pantone, que coloriu os looks da coleção, o cenário do desfile e até as lojas da Valentino.
valentino e o cinema
Fascinado desde sempre pelas grandes estrelas das telas, Valentino participou de momentos icônicos do cinema ao longo dos anos, com suas criações presentes em filmes como La Notte, de Antonioni, e Uma Linda Mulher. O próprio já apareceu como ele mesmo, dividindo a cena brevemente com Meryl Streep em O Diabo Veste Prada.

valentino e as celebridades
Jackie Kennedy Onassis foi talvez a maior musa da casa, com uma imagem que sintetizava bem a sensibilidade estética de Valentino Garavani: refinamento e glamour lado a lado. Eles se conheceram em 1962 e, após assistir a um desfile, Jackie encomendou seis vestidos de alta-costura.

Além de cliente fiel, os dois se tornaram grandes amigos, e Valentino assinou seu vestido de noiva para o casamento com Aristóteles Onassis. Anne Hathaway e Gwyneth Paltrow também foram noivas Valentino.

Fãs famosas não faltavam, muitas delas integrantes de seu círculo pessoal de amizades. Entre os nomes mais próximos estavam Elizabeth Taylor, Princesa Diana e Audrey Hepburn.

No red carpet, Julia Roberts, Sophia Loren, Jessica Lange e Cate Blanchett receberam seus Oscars a bordo de um Valentino. O vestido preto e branco usado por Roberts na cerimônia de 2001 foi um dos responsáveis por popularizar o uso de peças de vintage no tapete vermelho, já que o modelo era da coleção de 1992.
aposentadoria
Em 2007, ano em que a marca completou 45 anos, Valentino Garavani anunciou sua aposentadoria da direção criativa. O estilista afirmou estar farto da indústria e das mudanças do sistema, dizendo não querer fazer parte de um sistema agora dominado por grandes conglomerados, que sacrificavam o design e a criatividade, em prol do dinheiro.
Afastado das passarelas, seguiu na ativa. Em 2016, desenhou figurinos para uma produção da ópera La Traviata, em Roma. Também lançou livros especiais dedicados a seus interesses pessoais e seu lifestyle luxuoso, que iam da decoração à gastronomia, inspirados em temporadas a bordo do seu iate e em suas casas ao redor do mundo.
sucessão

Alessandra Facchinetti foi escolhida como sucessora do fundador, mas ficou apenas um ano no cargo. Em 2008, em uma manobra rara no mercado de luxo, a casa apontou dois nomes para assumir a direção criativa. A dupla Pierpaolo Piccioli e Maria Grazia Chiuri, apesar de pouco conhecida do grande público, já trabalhava na Valentino desde 1999, como designers de acessórios e à frente da linha Red, criada em 2003.
Fiéis ao espírito de Garavani, suas criações focavam em preservar a essência da marca, mas trazendo um apelo mais folk e lúdico. Graças à expertise em acessórios, conseguiram desenvolver o segmento, idealizando bolsas e sapatos que se tornaram best-sellers e ajudaram a trazer êxito comercial. A parceria bem-sucedida só chegou ao fim em 2016, quando Chiuri migrou para a Dior.
a era Pierpaolo
Em 2016, Pierpaolo Piccioli assumiu o comando sozinho e, embalado pelo sucesso da linha Rockstud, conduziu a casa para uma nova fase. Unindo o lado tradicional da maison, atrelado ao savoir-faire da alta-costura e a toda sua riqueza artesanal, com modernidade, incorporando inovações tecnológicas, modelagem em 3D e diferentes técnicas de bordado e corte.

Além disso, posicionou a Valentino no centro do zeitgeist, com desfiles em locações especiais, criando o PP Pink e elegendo Zendaya como embaixadora da marca. Em 2024, após 25 anos na empresa, sua saída foi anunciada.

a era Alessandro Michele
No mesmo ano, Alessandro Michele, ex-Gucci, foi eleito para assumir a maison. A chegada do maximalista Michele resgatou o lado mais opulente e glamoroso da casa, trazendo um apelo nostálgico aliado a um discurso atual.
Uma certa teatralidade é inerente à obra de Garavani e também ao estilo de Alessandro. Nascido e criado em Roma, berço da Valentino, ele preserva a herança da marca, mas não de forma literal, mesclando referências e símbolos históricos com uma dose de rebeldia. O belo é subvertido por uma atitude mais punk, e os arquivos são revisitados sem preciosismo.
legado
A Fondazione Valentino Garavani e Giancarlo Giammetti, sediada em Roma, preserva e celebra o legado cultural, artístico e histórico dos fundadores. Em 2023, a fundação passou a ocupar um palazzo histórico na cidade, dedicado à pesquisa, educação e exposições especiais.

A inauguração oficial aconteceu em 2025, e a primeira mostra não poderia ter outro tema que não o vermelho, maior símbolo da maison. Dividindo espaço com uma seleção de criações assinadas pelo estilista, estavam obras de arte de artistas como Basquiat e Picasso, todas apresentadas no mesmo tom de vermelho emblemático.
