Acredito que não seja novidade para ninguém que uma das grandes previsões de tendência na internet para esse ano é a volta ao analógico. Entre brain rot, doom scrolling e inteligência artificial, a fadiga digital grita por um motivo para que a gente fique offline.
Eu, pessoalmente, sinto essa necessidade no corpo. E talvez por isso, ironicamente, esses dias resolvi rolar o Pinterest em busca de um novo hobby. Algo que me fizesse desconectar, acalmar a mente, sair da lógica da produtividade constante. No fim, eu queria tudo: um caderno de desenho, cento e trinta tipos de uma caneta específica, um jogo de mesa para quando receber amigos... mas queria o bem aesthetic, tipo o da Bottega ta?
No final, confesso que me senti quase ludibriada. A volta ao analógico é um movimento genuíno ou só a última tendência que o mercado aprendeu a explorar?

A verdade é que a tendência de ficar off-line, parece não funcionar se não for postado. Não é exatamente sobre desenhar, jogar ou criar um ritual saudável. É sobre o desejo de comprar a experiência de estar desconectado.
As marcas entenderam isso rápido: não estão vendendo produtos, mas rituais. Objetos que prometem pausa, interação real e um tipo de tédio que hoje parece inalcançável. O offline, antes comum, agora é raro. E o raro, no luxo, sempre vira status e isso, meu amor, é o produto mais valioso que tem.
Quer jogar cartas com seus amigos? Que tal um conjunto de 725 doláres da Prada? Precisa de um lápis de colorir pra desopilar? Acho que aquele de 770 doláres da gucci tá babado ein.

Brincadeiras à parte, para nós, os cronicamente online, que buscamos abstrair e nos afastar um pouco das redes, fazer isso com um empurrãozinho capitalista não necessariamente é algo ruim. Muitas vezes, inclusive, esses estímulos acabam funcionando como uma porta de entrada para redescobrir hobbies, criar rituais offline e estabelecer pequenas pausas na rotina hiperconectada.
Ainda assim, vale manter um olhar crítico. Existe uma linha muito tênue entre consumir algo que realmente proporciona descanso, prazer e reconexão com o presente, e simplesmente aderir a mais uma tendência que, no fundo, só cria outra demanda de consumo ou uma nova obrigação de performance... agora, ironicamente, performando o “estar offline”.
No cenário atual, em que até o descanso pode virar conteúdo, é importante se perguntar: isso está me ajudando a desacelerar ou só mudou o formato da pressão?
Existe também um ponto importante de lembrar que muitas tendências, demandas e até desejos de consumo que parecem universais, na verdade, pertencem a uma bolha muito específica da internet.
Parece que todo mundo está comprando o último lançamento de papelaria, fazendo vinte peças de crochê em um mês. Mas, fora desse recorte hiperconectado, a vida segue em outro ritmo. No mundo real, ninguém está cobrando performance de hobby. Muitas vezes, essa urgência é fabricada por algoritmos, ciclos de tendência cada vez mais curtos e pela sensação de pertencimento que o consumo promete entregar.
Reconhecer que isso é, em grande parte, uma dinâmica de nicho pode ser libertador e, ajuda a resgatar a ideia de que hobbies, consumo e até o descanso não precisam seguir cronogramas virais para serem válidos.
E você, no último ano teve alguma promessa de hobbie que virou meta de produtividade?
