O que a busca pelo braço definido diz sobre a indústria do bem-estar e da moda?
Se você tem acompanhado as redes sociais, já percebeu: braços definidos viraram o novo padrão de beleza em alta. O que antes era sobre ter a barriga chapada ou as coxas finas agora migrou para os membros superiores. E como todo padrão de beleza que ganha força, esse também levanta discussões sobre representatividade e os custos (literais e simbólicos) de alcançá-lo.
tá, mas de onde veio essa obsessão?
A tendência dos braços definidos não surgiu do nada. Ela vem ganhando força desde que celebridades como Jennifer Aniston e Miley Cyrus começaram a exibir bíceps e tríceps trabalhados como parte de uma rotina de autocuidado.
A moda também tem sua parcela de responsabilidade. Com o retorno das silhuetas dos anos 2000 — tops, alças finas, looks que deixam os braços completamente à mostra —, ter braços definidos se tornou parte do visual aspiracional do momento. E naturalmente, onde há demanda estética, surge um mercado pronto para atendê-la.

quanto custa o bem-estar?
O mercado global de wellness vale US$ 6,3 trilhões, quatro vezes o tamanho da indústria farmacêutica. E a expectativa é que esse número chegue a US$ 9 trilhões até 2028, crescendo 7,3% ao ano. Três setores concentram 52% desse faturamento: cuidados pessoais e beleza, alimentação saudável e atividade física.*
Mas o que isso significa na prática? Entre academias boutique, personal trainers e suplementos proteicos, estão todos surfando nessa onda. Para conseguir os braços "perfeitos", não basta apenas fazer flexões em casa. É preciso investir em treinos especializados, acompanhamento nutricional, creatina, whey protein e, dependendo do caso, procedimentos estéticos.
O acesso ao wellness está longe de ser universal. Enquanto há quem possa pagar toda essa conta, a maioria da população brasileira lida com uma realidade bem diferente. O Brasil é o país mais sedentário da América Latina e o quinto no mundo. Mais da metade da população está com sobrepeso ou obesidade. Dezoito milhões de brasileiros vivem com ansiedade.
E não, não é porque essas pessoas não querem se cuidar. É porque as condições para uma vida saudável simplesmente não são equiparáveis para todo mundo. "Como dizer a uma mãe periférica, com três filhos, que ela precisa encontrar tempo para trabalhar, fazer caminhada, preparar uma janta saudável e dormir oito horas por noite?", diz Bruno Gualano, pesquisador do Centro de Pesquisa em Alimentos da USP*.
Historicamente, padrões estéticos sempre comunicaram algo sobre status socioeconômico. É o mesmo raciocínio por trás do bronzeado popularizado pós-1920, que sinalizava férias e lazer, ou da magreza extrema nos anos 2000. Os braços definidos são a nova moeda de status — e a indústria sabe disso.

o retorno aos anos 2000 (e aos seus padrões)
Com a volta estética dos anos 2000, os avanços do movimento body positive dos últimos anos praticamente evaporaram. Os números mostram essa mudança: em 2024, apenas 0,8% dos looks apresentados nas semanas de moda eram plus size, segundo um relatório da Vogue. A indústria, que já vinha recuando em diversidade corporal, agora acelera na direção contrária em tempos de Ozempic e GLP-1.
O mercado desses medicamentos foi estimado em US$ 13,84 bilhões em 2024, com projeção de alcançar US$ 48,84 bilhões até 2030. Esse cenário impacta desde a indústria da moda, com roupas em tamanhos cada vez menores, até a percepção coletiva do que seria o corpo mais desejável do momento. E naturalmente, quem não se encaixa nesses padrões sente os efeitos.
o ciclo do consumo
A dinâmica do mercado de wellness funciona em ciclos. Padrões estéticos mudam, e com eles, surgem novas demandas e soluções. O que hoje são braços definidos, ontem eram coxas sem celulite, e antes disso, a barriga negativa. Cada novo foco traz consigo um ecossistema de produtos e serviços. "Se desse para encapsular exercício físico, seria a pílula mais vendida da história", provoca a biomédica Bruna Maria.*

repensando o que realmente importa
Vamos deixar claro: não há nada de errado em querer buscar braços definidos se isso te faz bem (muito pelo contrário!). A questão se torna problemática quando esse desejo individual é transformado em padrão universal, quando vira marcador de valor ou quando cria uma hierarquia entre corpos "certos" e "errados".
No fim do dia, a pergunta que fica para nós, é: estamos buscando o tal do braço definido porque isso nos faz sentir bem, ou estamos tentando comprar um status que a indústria nos convenceu que precisamos ter?
*fontes: dados do Global Wellness Institute (GWI) / Superinteressante
