Precisamos falar sobre pessoas negras vivendo com luxo

por Inaê Ribeiro

Se citarmos Dionne Davenport de as Patricinha de Beverly Hills, Hilary Banks da série Um Maluco no Pedaço, Ellen da novela Cobras e Lagartos e Michaela Pratt de How to Get Away with Murder, o que você vê em comum? Todas estão vivendo com luxo e poderiam ser consideradas o que chamamos hoje de Preta Patrícia ou afropaty. O termo, que tem dominado as redes sociais, se refere às mulheres negras que possuem ou buscam uma ascensão econômica e gostam de estar bem vestidas, maquiadas, mas ele vai além disso, sendo mais político do que aparenta.

Historicamente, os negros sempre estiveram na base da pirâmide socioeconômica, logo quando ocorre essa ascensão é comum que eles sejam os únicos nos ambientes de luxo que frequentam e até mesmo que as pessoas ao redor questionem o porque deles estarem ali ou ter poder aquisitivo para comprar uma peça de luxo. Como dissemos, o termo afropaty vai além do desejo por adquirir grifes, que também é um desejo real e válido, porém, ao limitar essa luta apenas a isso, os conceitos podem se inverter, associando a mulher preta àquela imagem metida e raivosa. 

Para fortalecer o nosso debate, convidamos duas mulheres que estão vivendo com luxo para dividirem as suas vivências como Pretas Patrícias e compreender se o julgamento por estarem ocupando esses espaços ainda acontece. Vem com a gente aprender um pouco através dos relatos das jornalistas e influenciadoras Luanda Vieira e Larissa Cunegundes.

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Foto: Melissa’s Wardrobe (Reprodução/Instagram)

afinal, o que é luxo?

Estar vivendo com luxo para pessoas pretas é sinônimo de quebrar padrões de baixa renda que estão associados à elas, é poder estar em locais que antes não podiam e até mesmo ajudar familiares a conquistarem coisas, sejam elas materiais ou ter um estudo de qualidade.

Larissa Cunegundes concorda que luxo, para ela, é algo muito diferente do que está escrito no dicionário, que em resumo, significa algo supérfluo e de ostentação. “Entendo o luxo como a possibilidade de você ter condições de comprar algo que vai ser duradouro, cujo trabalho tem significado. Isso vai de encontro ao funcionamento de muitas lojas de fast fashion, que, em geral, reproduzem tiragens numerosas e que nem sempre garantem durabilidade. Você ter algo de luxo é ter algo que pode durar para a vida inteira”, relata.

Do outro lado, temos Luanda Vieira, que acredita que luxo é estar confortável com sua essência, sem precisar agradar a expectativa do outro. “ É ter consciência de quais são as minhas condições, ser criativa dentro destas possibilidades e ter um estilo de vida único; é também poder circular sem medo. Não sentir necessidade de se encaixar em qualquer caixa é um luxo e a melhor sensação de liberdade que existe. Acredito muito que esta definição faz parte de um longo processo de autoconhecimento”, afirma.

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Foto: Luana Vieira (Reprodução/Instagram)

o primeiro item de luxo

Mesmo com essas definições, luxo também pode ser algo material e o primeiro item adquirido possui um peso emocional e social enorme, já que é a materialização de toda essa luta. Luanda, como boa apaixonada por moda e toda a história por trás da indústria, teve como seu primeiro item material de luxo, uma bolsa Gucci, a clássica GG Marmont. "Antes disso, a minha mãe já tinha me presenteado com outras bolsas de marcas que admiro, como a Off White, Marc Jacobs e DVF, mas nada chega perto do gostinho de comprar com o próprio dinheiro, principalmente fruto de um trabalho que a gente ama. Hoje o meu item de luxo dos sonhos é a casa própria", ela conta.

Coincidentemente, as primeiras peças luxo comprado por Larissa foi da mesma marca, da grife italiana Gucci. "Os primeiros itens de luxo que comprei foram uma bolsa e um cinto da Gucci. Isso foi em 2018 e considero uma circunstância de importante realização profissional, porque nunca pensei que iria conseguir adquirir um artigo de luxo em tão pouco tempo", compartilha.

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Foto: Larissa Cunegundes (Reprodução/Instagram)

mulheres pretas vivendo com luxo e o julgamento

O processo de ocupação desses espaços luxuosos não é tão simples e fácil, não é porque uma mulher negra hoje está vivendo com luxo que ela está isenta do racismo e livre dos olhares alheios que pensam o porque dela estar ali e como chegou. Larissa relembra o fato de pessoas pretas sempre serem julgadas e não seria diferente nessas situações. "Nós, pretos, sempre somos julgados, né? E quando uma mulher preta tem algo de luxo, ela é vista como arrogante que está ostentando ou até mesmo é julgada de metida. Enquanto isso, uma mulher branca com um item de luxo é aplaudida e glorificada por ter esse produto. Pessoas pretas com poder aquisitivo alto incomodam muito a sociedade".

Luanda ainda complementa, afirmando que todos esses julgamos fazem com que pessoas pretas duvidem do direito de estar naquele local. "De um lado, pessoas brancas questionam os meus acessos e fazem questão de me lembrar com frequência que eu não deveria ter esse estilo de vida; do outro, algumas pessoas negras acreditam que eu vivo um processo de embraquecimento (que seria impossível), quando na verdade a minha maior luta e vontade é normalizar três coisas: 1) não existem histórias únicas; 2) não devemos estar onde esperam que a gente esteja; 3) o sucesso de pessoas negras". 

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Foto: Candice Brathwaite (Reprodução/Instagram)

a importância de ser

Como Luanda disse, é preciso que o sucesso de pessoas negras seja normalizado, que cada vez mais indivíduos tenham a chance de estar vivendo o que consideram como algo luxuoso e adquirindo bens materiais também. "É muito importante poder mudar a narrativa estereotipada do negro sem educação, informação, capacidade e em lugares subalternos. É um caminho que mexe até com a autoestima da população negra que, muitas vezes, de tanto que falam, se sente incapaz de ir além. Durante muito tempo eu fui a única em muitos ambientes, mas sempre com a vontade de não ser mais. Hoje eu vejo uma multidão vindo junto e não tem preço", afirma Luanda. 

Larissa, pensando em sua trajetória, relembra que nunca imaginou alcançar tamanho poder aquisitivo, e que é através de sua vida que ela dá esperança para outras mulheres negras. " Eu nunca imaginei, com a profissão que tenho como produtora de conteúdo e jornalista, que iria alcançar um poder aquisitivo alto e ter essa liberdade de comprar produtos de luxo. De alguma forma, mostro para as mulheres pretas que, através do nosso trabalho e da nossa dedicação, com as devidas oportunidades e sempre com consciência, também temos o direito de ascender social e financeiramente. Assim é possível abrir portas para quem está junto e, também, para quem vier depois", finaliza.

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