Pretty Baby: reflexões de Brooke Shields sobre a infância nos holofotes

por Isadora Abreu

O documentário Pretty Baby: Brooke Shields, dirigido por Lana Wilson, nos leva um pouco além de uma biografia de um dos símbolos de beleza e talento mais icônicos dos anos 1970 e 1980. A série documental lançada em 2023 provoca reflexões sobre a cultura do entretenimento, a forma com que as mulheres são retratadas no cinema e na publicidade e os perigos de uma exposição precoce, tema que abordado por muitos artistas que obtiveram sucesso em suas carreiras em idade jovem e sofrem com a repercussão emocional por muitos anos. 

Reprodução/Hulu

Se você assistiu o documentário quando ele foi lançado ou reassistiu recentemente, você acompanhou as memórias de Brooke Shields em momentos marcantes de sua carreira que hoje recebem uma nova interpretação e leitura pela própria atriz, hoje uma mulher madura que procura assumir as rédeas da sua narrativa. A postura da atriz durante o documentário não é só de revisitar memórias, mas sim provocar reflexão e reivindicar a forma como sua carreira foi administrada nos primeiros anos. Durante décadas, a mídia tentou enquadrá-la ora como a “Lolita consensual”, ora como a “vítima indefesa” e mais tarde até como cúmplice de toda essa exposição. No documentário, Brooke desconstrói ambos os estigmas. 

Brooke Shields como Violet em Pretty Baby aos 11 anos (Reprodução/Getty Images)

Quando Brooke Shields foi escalada para o papel de Violet, uma criança que cresce em um bordel e é explorada pela prostituição, ela já havia estrelado diversas campanhas publicitárias, estampado capas de revista que a elegiam como uma das mulheres mais bonitas do mundo. E de fato a beleza de Brooke Shields sempre foi notável, mas será que essa pressão por beleza deveria ser colocada sobre a imagem de uma criança? E a forma com que a mídia desdobrava essa atenção trazia um olhar ainda mais sexualizado sobre essa imagem. Essa discussão é a parte inicial do documentário, onde Brooke revela que durante as gravações do filme ela precisou beijar o ator Keith Carradine que na época tinha 29 anos, o problema disso? Brooke tinha apenas 11 anos. 

Ela conta que na época tinha noção do que era atuar e olhava para aquilo como um eterno “faz de conta”, onde interpretava um universo que não era o real, mas isso não a poupou de viver o desconforto do momento e que hoje enxerga o impacto emocional que a cena carrega. Assim que foi lançado o filme gerou uma polêmica internacional por conta das cenas de nudez infantil e que romantizavam atos de assédio, sendo banido em alguns países e passando por cortes de cena.

A diretora Lana Wilson e Brooke Shields no lançamento do documentário (Reprodução/Getty Images)

O impacto de Pretty Baby (1978), no entanto, foi apenas o primeiro capítulo de uma série de trabalhos estrelados por Shields. Pouco depois, campanhas publicitárias icônicas e agressivas — como os polêmicos comerciais da Calvin Klein em que a atriz, ainda menor de idade, sussurrava que “nada ficava entre ela e sua Calvins” — consolidaram uma dinâmica de mercado perversa: o lucro bilionário baseado em gerar marketing a partir da inocência. Naquela época, o limite entre o profissionalismo e a exploração era uma linha cinzenta, muitas vezes cruzada sob o pretexto da “expressão artística” ou da autonomia de pais-empresários. 

A importância desse tipo de conteúdo é justamente para que sejam feitas comparações com o cenário atual, afinal economicamente e culturalmente a indústria do entretenimento tem muito destaque, mas essa celebração nunca deve acontecer às custas de uma criança. O sacrifício emocional imposto a Brooke Shields ajudou a pavimentar o caminho para mudanças estruturais profundas. 

O mercado contemporâneo de atuação e moda opera sob regras que ficaram mais rígidas ao longo do tempo. A presença de regulamentações severas sobre a carga horária de menores, a obrigatoriedade de suporte psicológico nos bastidores e, mais recentemente, a introdução de coordenadores de intimidade em cenas vulneráveis são conquistas que visam proteger a integridade dos atores e modelos em cena. 

Mesmo com esses avanços no meio tradicional, o documentário nos acende um alerta para os novos formatos de exposição precoce. Na era digital, onde as redes sociais e os “pais influenciadores” criaram um mercado descentralizado de fama instantânea, os perigos da espetacularização da infância mudaram de endereço, mas continuam ativos. A linha tênue entre o “faz de conta” e a exposição real agora é ditada por algoritmos, desafiando a legislação a se renovar constantemente.