Depois do sucesso de Love Story: JFK Jr. e Carolyn Bessette, Ryan Murphy retorna com Estilhaços (The Shards), já disponível na Disney+. Baseada na obra homônima de Brett Easton Ellis, mesmo autor de Psicopata Americano, a série começa em 1980 com uma ida ao cinema para ver O Iluminado.
O mood soturno, como se algo estivesse prestes a acontecer, afinal, a trama é de mistério, contrasta com o glitz de Hollywood e as paisagens douradas de Los Angeles.
O início com a obra-prima de terror de Stanley Kubrick não é arbitrário, mas uma espécie de presságio. A narrativa mescla gêneros distintos: a linguagem pop camp de Ryan Murphy e traços de terror, devido ao serial killer que é parte central da narrativa.
Da arquitetura de encher os olhos aos carros antigos, passando pela trilha sonora cheia de hits oitentistas, tudo é orquestrado em sintonia para construir o universo imersivo da história. Entre todos os elementos, o figurino tem peso fundamental na narrativa: o estilo dos personagens comunica visualmente suas personalidades e idiossincrasias.

Nesse período, as roupas ainda lembravam os estereótipos da década anterior, em especial no clima ensolarado da Califórnia, onde a história se passa.
Assinado por Lou Eyrich e Joshua Marsh, as roupas escolhidas a dedo trazem peças originais do período garimpadas em brechós, vintage de marcas como Givenchy, Ralph Lauren e DVF, aliadas a itens contemporâneos transformados pelo contexto.
Ambientado em uma escola particular da alta sociedade, as nuances entre cada um aparecem no styling do uniforme da escola, nos óculos escuros eleitos, nos penteados. Uma ode às diferentes interpretações da estética preppy.
A década de 80 vive um revival na moda atualmente, mas não espere color blocking e volumes exagerados na série: aqui a influência setentista ainda impera e pegamos os personagens bem nesse momento de transição, antes do auge do exagero. As cores, por exemplo, quando vibrantes, ficam mais em tons de pedras preciosas do que no neon que viria depois.

A cartela tem, sim, papel relevante. Iniciando em navy, cinza, branco e preto, ela vai se modificando ao longo dos episódios, com tonalidades encorpadas ganhando espaço.
Entre as personagens femininas principais, as diferenças são pronunciadas. Susan prefere movimento, Deborah prefere bodycon com tudo bem marcado. Uma vai de crochê, a outra de couro.
Susan (Kaia Gerber): mix de garota mais popular do colégio com type A, o preppy com toques românticos impera. Coletes usados por cima de camisas, suéter nos ombros, maquiagem suave.

Jeans de cintura alta, tons terrosos. Clima mais naturalista.
As cores neutras e as peças clássicas como chemises e detalhes como laço se destacam.
Deborah (Hayes Warner): mais rebelde, Debbie gosta de ousar, dos penteados aos comprimentos. Almejando o estrelato, ela encarna diferentes personagens na hora de se vestir, seja no uniforme mais tradicional para praticar hipismo, seja na vibe rocker inspirada na vocalista Debbie Harry da banda Blondie.
Disco, glamour, texturas luxuosas não podem faltar. Tons de rubi, rosa, produções monocromáticas, acessórios com detalhes de tachas e brilhos.

A performance não para nunca e até em casa ela usa conjuntinhos de lingerie e robes no melhor estilo boudoir. Os materiais têm papel fundamental para trazer o sex appeal com texturas que atraem o olho e convidam ao toque.
Já entre os homens, as diferenças são mais sutis, porém igualmente importantes na psicologia de cada um.
Brett (Igby Rigney): narrador da história e aspirante a escritor, explora o preppy com apelo fashion. Jeans, camisa polo, malhas de botão, o uniforme de blazer com gravata listrada. Aliás, as gravatas aparecem também fora da escola, como parte de seu guarda-roupa.
Robert (Homer Gere): a calça de couro inseparável é a assinatura de Robert, assim como os óculos escuros maiores. A presença do couro com o combo blazer, camisa e gravata do uniforme escolar é suficiente para criar a aura de bad boy.
Thom (Graham Campbell): tipo garoto de ouro da escola, atleta e namorado de Susan, Thom adere ao preppy oitentista sem nenhuma emoção. Ele usa todos os ícones da estética personificando-a de maneira praticamente literal.

Entre os outros personagens, vale prestar atenção em dois: Steve (Jordan Roth), o assistente enigmático do pai de Deborah, cujo visual remete a um Andy Warhol mais extravagante. Fique de olho em seus macacões, conjuntinhos e paleta de cores elétrica.

E em Liz (Evan Rachel Wood), mãe de Debbie, uma ex-modelo e atriz com carreira duvidosa cujo cabelo e produções fazem referência óbvia à Elvira, personagem icônica de Michelle Pfeiffer em Scarface.

