O imaginário mitológico sempre permeou a cultura como um todo. Nos livros, nas peças de teatro, nos filmes, de Hércules a Tróia e, claro, na moda. E é claro que, com o lançamento do novo longa de Christopher Nolan, A Odisseia, deuses e monstros desencadearam uma nova obsessão fashion e diversas hiperfixações. No entanto, se olharmos para trás, você vai ver que há décadas estilistas e seus desfiles já flertavam com tudo o que envolve o Olimpo.

E Maria Grazia Chiuri que o diga. Talvez a estilista seja uma das que mais brincaram e referenciaram estéticas da cultura grega em suas coleções. Em 2024, por exemplo, ela trouxe um pouco da Grécia Antiga para as passarelas, com direito a vestimentas inspiradas nos peplos e sandálias gladiadoras.

Muito antes disso, em 1997, Alexander McQueen foi em busca do Velo de Ouro com modelos trajadas em penas, ombros exagerados, criações aladas, corsets dourados e armaduras. Inclusive, foi justamente dessa coleção que Law Roach buscou inspiração para vestir Zendaya em uma das premières de A Odisseia.

Karl Lagerfeld, em 2017, também já havia nos levado para um passeio pela Grécia com a coleção Resort da Chanel, dedicada ao busto de Vênus que Coco Chanel possuía em seu apartamento na Rue Cambon.
Nada para vestir?
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Quer voltar um pouco mais no tempo? Alix Grès, também conhecida como Madame Grès, queria ser escultora, mas acabou dominando a arte da alta-costura. Isso ficou evidente em suas criações, já que era uma verdadeira mestra dos drapeados, remetendo a esculturas greco-romanas moldadas por meio de fios e agulhas.

E em 1907? O estilista Mariano Fortuny, também conhecido por técnicas de microplissado, movido pelo movimento da libertação do espartilho criou seu icônico vestido “Delphos”, que foi inspirado em um quíton, como o visto na escultura ” O Auriga de Delfos”.

E, claro, não podemos esquecer de Mary McFadden, que encontrava inspiração em civilizações antigas e em suas viagens para muitos de seus designs.

Um pouco de opulência dos anos 90 com Gianni Versace em uma versão microsexy, que tal?

Apesar da beleza etérea que permeia a mitologia, de maneiras menos óbvias também é possível alcançar o mesmo efeito. Prova disso são as criações da própria Dimitra Petsa, estilista grega que, há alguns anos, explora sua própria cultura e, no caso de sua coleção mais recente, decidiu mergulhar no mito que envolve Medusa.

Em uma coleção dedicada justamente às criações de Fortuny, Pierpaolo (antes da Balenciaga) e Maria Grazia Chiuri (antes da Dior e da Fendi) mergulharam, dez anos atrás, no imaginário grego com microplissados e adornos de cabeça.

A moda mitológica no cotidiano
Bom, é impossível não mencionar Zendaya, mas como essa matéria ficaria gigantesca se eu trouxesse todas as roupas que a atriz usou para divulgar A Odisseia (onde ela interpreta a figura da deusa Atena), busquei o visual que melhor representa a interpretação contemporânea da mitologia no dia a dia, ou seja, que mais se aproxima do que podemos usar no dia a dia. E nem adianta brigar comigo por causa da sandália gladiadora, eu sei que você já desejou ter uma em 2010.
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Vestidos com drapeados não podem faltar, é claro, em versões com recortes, brincam com a estética, mas adicionam um toque sensual a mais.

Para além da vestimenta, cabelos e beleza também entram nesse jogo. Tranças e penteados configuram esse imaginativo.
E por que, afinal, a moda se volta para o fantástico?
Essa é uma pergunta bem interessante e na qual venho pensando enquanto fazia minhas pesquisas. Ao meu ver, a mitologia é um dos poucos repertórios culturais capazes de reunir beleza, violência, desejo, tragédia e heroísmo ao mesmo tempo. Talvez seja justamente por isso que ela nunca deixe de seduzir a moda.
Além de servir como fonte de inspiração estética, recorrer aos mitos também significa recorrer a uma linguagem universal. Há séculos, essas histórias carregam símbolos de poder, transformação, amor, vingança e destino — elementos que o mercado de luxo sempre soube traduzir em desejo. Afinal, a moda sempre encontrou maneiras de transformar o espírito do tempo em roupa.
Mas se esse diálogo nunca deixou de existir, por que ele parece tão evidente agora? Talvez porque, depois de anos marcados por pandemia, guerras, crise climática e, mais recentemente, pela inteligência artificial transformando nossa relação com o trabalho e até com a criatividade, exista uma busca crescente por universos fantásticos. Em momentos de incerteza, histórias que atravessaram milênios voltam a oferecer um repertório simbólico capaz de explicar, ou pelo menos traduzir, emoções que continuam profundamente humanas.

