Aposto que você já notou: aquele mar de conjuntinhos de alfaiataria e os looks direto dos anos 90, que dominavam nossos feeds, estão cedendo espaço para algo mais bagunçado e nostálgico. A história se repete, sempre. Dessa vez, os holofotes se afastam do quiet luxury e se voltam para o boho.

Nos últimos anos, o quiet luxury dominou o mainstream. Impulsionado pelo mundo pós-pandemia, o desejo por um guarda-roupa atemporal e sofisticado cresceu. Mas não era só sobre elegância discreta: em um sistema capitalista, a forma como nos vestimos comunica status e pode abrir portas. E num tempo em que "manifestar" virou mantra pop, quem sabe se vestir como quem já "chegou lá" não seria a melhor estratégia para, de fato, chegar? O sucesso de séries como Succession e a fascinação pelo lifestyle da elite alimentaram essa ascensão, que logo se desdobrou no fenômeno da clean girl.
Os cabelos impecavelmente presos, a maquiagem com cara de "nada" - que, ironicamente, exigia pele perfeita (seja por genética, procedimentos ou skincare caríssimo) -— e técnicas meticulosas para parecer sem esforço se tornaram desejo coletivo. Mas a moda não para nunca, e seu pêndulo eterno vive de tornar obsoleto o que até ontem era novidade.

A estreia de Chemena Kamali na Chloé foi o catalisador perfeito para o retorno do boho. O timing não poderia ser melhor, já que o período Y2K vem fascinando há tempos, especialmente a Geração Z. Apesar de seu espírito 70s, o boho teve seu último grande momento de glória nos anos 2000. Com renda, camurça, tons terrosos, franjas e sobreposição de acessórios, a estética boêmia se distancia muito do clima quiet luxury e suas tonalidades neutras, alfaiataria e vibe polida. E quem se influencia por tendências — que, sejamos realistas, é uma fatia crescente da população — já não sabe o que fazer com a coleção de blazers e já busca substituí-los por vestidos fluidos. Exatamente como a indústria quer.
Nada mais previsível, já que as tendências seguem um ciclo clássico: inovadores descobrem primeiro, early adopters legitimam, a maioria inicial adere quando está consolidado, a maioria tardia segue por osmose, e os retardatários simplesmente ignoram.
Os dois primeiros grupos são os que ditam o ritmo. Para eles, moda é afirmação e, muitas vezes, um jogo de exclusividade. Quando o que antes era "diferente" se torna "mainstream", parte da identidade se dissolve. E a solução? Acelerar o ciclo, buscando o "próximo grande movimento" antes que o resto chegue lá.

A moda se reinventa, mas suas influências nunca desaparecem. Nos anos 90, o grunge e o minimalismo vieram para contrapor a ostentação dos 80s. Hoje, o boho ressurge como resposta ao quiet luxury. Mas tem algo diferente: a internet, e mais especificamente, o TikTok, comprimiram esses ciclos. Um vídeo viral é capaz de transformar uma estética num novo fenômeno de consumo em dias.
Dessa vez, o revival do boho não veio apenas pelas grandes marcas, mas também pelo resgate do vintage e do artesanal. Roupas garimpadas, feitas à mão, ou que valorizam processos mais lentos ganharam espaço, num discurso que mistura desejo de sustentabilidade com vontade de se diferenciar. Mas até que ponto?
O paradoxo é que, na busca pelo autêntico, reforçamos um consumo rápido e superficial. Em um piscar de olhos, o "feito à mão" vira tendência e passa a ser reproduzido em escala massiva, esvaziado de significado. E as peças de quiet luxury? O que acontece com elas agora que perderam a aura de exclusividade? Muitas vão parar em brechós de revenda, outras, descartadas, alimentando o acúmulo de "tendências passadas" em aterros sanitários.
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A moda é um negócio gigantesco, e esse sistema — por mais acelerado e voraz que seja — faz parte da engrenagem. Mas tendências também são reflexos culturais, espelhos dos nossos desejos e anseios como sociedade. Saber discernir isso é essencial, mas fazer a moda servir você é ainda mais.
O antídoto para quebrar esse ciclo? Não é fugir das tendências, mas parar de ser refém delas. Construir um estilo pessoal é um processo em constante evolução: mudanças de vida, de trabalho, de cidade, de corpo — tudo isso impacta a forma como nos vestimos. Incorporar itens em alta faz sentido quando reflete quem você é, e não quando é só uma promessa de pertencimento vendida como novidade. No fim, moda em sua essência mais pura é sobre identidade e auto expressão. A diferença entre usar a moda e ser usado por ela está justamente aí.